Café Literário: Abduzida


sim, abduzida
abriram minha pele, rastrearam a inspiração
puseram um chip na raiz da canção
dissecaram minha verve, meu rico vocabulário
fizeram um novidicionário numa novilíngua tresloucada
não sabem que falo com musgos em musguês, com lesmas em lesmês
com vocês em coloquiês e comigo em comiguês

não souberam peneirar o crivo de perguntas
qual a cor da alma
se fantasma tem frio
se o céu daqui é o céu de lá
se a noite sabe bocejar
se árvore sente sono
se pingo olha onde cai
porque o vermelho não é verde
porque minha pele é estrelada
porque minha voz é antiga
porque música é oceano
porque o humano é desumano
porque me engano no engano?

fecharam com fio de laser
deixaram sutis cicatrizes
que doem quando ronda o medo
e arrepiam de prazer sob arvoredos

os chips informam cada canção que engendro
me seguem nas entrelinhas que invento
concluíram que isso não é fato
disseram que criar é impossível
que é além dos limites do crível
que portanto eu não existo ou sou uma aberração
alegoria, mito, fantasia
um nada falando de boca calada

mal sabem eles das quantos que somos
vaga-lumes no breu do silêncio
plantando colcheias sementes na lavra da nossa canção.

Luhli

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