Café Literário: Noite de autógrafos macabra


Com muito custo encontrou uma vaga para estacionar o carro. Plínio Junqueira odiava ir ao shopping, mas isso fazia parte da profissão. Pelo menos, de tempos em tempos, tinha de seguir o roteiro traçado pela sua carreira de escritor. “Os tempos são outros”, dizia ele. Tinha saudade daquela época em que o trabalho do escritor nada mais era do que escrever. Agora era diferente. Após a árdua tarefa de deixar toda a sua criatividade ganhar o mundo com suas obras, tinha de acompanhar a edição do livro até que este estivesse definitivamente pronto. Atualmente, Plínio participava até da escolha do papel em que o livro seria impresso. A cor, a gramatura, a arte final da capa, enfim. Porém, nada mais o irritava, do que as intermináveis noites de autógrafos. Obviamente que seu ego adorava essa parte, mas ainda assim, não deixava de ser cansativo.

Plínio Junqueira era um escritor de sucesso. Escrevia com maestria sobre o sobrenatural. Lobisomens, mortos-vivos, possessões, vampiros, tudo isso fazia parte do seu leque de opções literárias. Mas, aqueles pelos quais tinha mais prazer em escrever, e por conseguinte, aqueles que mais faziam sucesso, eram os livros sobre vampiros. Sua última obra intitulava-se, “O Conde de Turda”, e narrava a história de um conde romeno e suas aventuras noturnas na Europa medieval.

A primeira tiragem já havia saído com cem mil exemplares, um verdadeiro fenômeno para os autores do gênero. A verdade era que Plínio já havia conseguido fama e dinheiro com sua profissão. Os livros eram consumidos com voracidade por seus leitores, ávidos por novas histórias. Sendo assim, mesmo que o aborrecesse, teria de comparecer e ser todo solícito ao evento de lançamento.

Plínio trancou o carro, ligou o alarme e seguiu para pegar o elevador no subsolo. Ouviu passos atrás dele e virou-se para olhar por instinto. Não viu ninguém. Seguiu em direção ao elevador que não demorou a chegar. Entrou dando uma última olhada para o estacionamento vazio. De novo, ninguém. Apertou o número seis. Era o último andar do maior shopping da cidade. O elevador parou e ele desceu. Passou ainda pelo toilete para dar uma geral na aparência. Olhou-se no espelho, ajeitou o cabelo e deu uma arrumada na gola da camisa. Antes de sair deu um sorriso sarcástico, dizendo pra ele mesmo:

- Vamos lá garotão. É hora de ganhar mais uma graninha. Ouviu um som estranho vindo de uma das cabines individuais do banheiro.

- Olá. – disse ele inseguro.

Voltou-se para o espelho para dar uma última olhada na sua fisionomia, e novamente ouviu um barulho que não soube identificar.

- Tá tudo bem aí? – perguntou

Intrigado, foi em direção as cabines. Eram oito no total. Foi abrindo uma a uma. Todas vazias. Chegou à última, que aparentemente estava trancada. Abaixou-se para tentar ver por baixo se havia alguém passando mal, ou coisa do tipo. Não viu nada, porém, ainda curvado, ouviu uma espécie de rosnado baixo. Encostou o ouvido na porta pra tentar ouvir melhor.

- Posso ajudar em alguma coisa, senhor? – a voz do homem fez Plínio bater com a cabeça na porta.

Olhou para a entrada do banheiro e desconcertado, percebeu que a pergunta fora feita pelo empregado responsável pela manutenção dos toiletes, que adentrava ao local com alguns pacotes de papel higiênico nos braços.

- Não, não. Está tudo em ordem. – disse Plínio sem graça. – Pensei ter ouvido alguma coisa, mas acho que foi só impressão.

O escritor apanhou a pasta que trazia deixara em cima da pia do banheiro e saiu apressado.

“Que vergonha, Seu Plínio. Imagine se algum dos seus leitores tivesse visto essa cena patética. O grande mestre do terror, com medo da loira do banheiro.” – pensou ele, deixando escapar um sorriso amarelo.

Continuou andando pelo corredor e ao dobrar a primeira esquina, já conseguiu visualizar a livraria. Era uma megastore, e dessa forma, conseguiu passar despercebido na entrada, e rumou para a gerência da loja. Chegando lá, anunciou-se:

- Boa Noite. Sou Plínio Junqueira. Estou aqui para a noite de autógrafos.

- Claro Sr. Plínio. – disse o rapaz, saudando o autor. – Que bom que chegou. Já há uma fila de fãs aguardando a sua presença.

O gerente acompanhou o escritor até a sessão de livros, onde a aglomeração de pessoas era enorme. O rapaz não havia mentido sobre a quantidade de fãs.

Ao se aproximar, os primeiros leitores já o identificaram e o saudaram com uma salva de palmas. Uma bela mulher, alta, com um vestido curto, e excessivamente maquiada, veio cumprimentá-lo:

- Olá Plínio, já estávamos ficando preocupados. – disse a mulher, que era uma das sócias da editora pela qual lançava seus livros.

- Boa noite Débora. – respondeu ele, dando-lhe um beijo no rosto.

O pessoal da editora havia caprichado na decoração. Cruzes penduradas no teto, velas vermelhas sobre a mesa, cuidadosamente decorada com os livros formando um belo desenho geométrico, e um crânio artificial, servia como suporte para uma bela coleção de canetas prateadas.

Seus leitores eram de todas as faixas etárias. A maioria, jovens até os trinta anos, mas também, alguns homens e mulheres mais experientes, que apreciavam aquele tipo de literatura, pela qual Plínio tinha tanta facilidade em escrever. Alguns fãs mais empolgados, estavam vestidos a caráter. Alguns deles usavam toda a indumentária consagrada nos filmes antigos. Capas negras nas costas, roupas góticas, crucifixos deformados nos pescoços, e maquiagem fazendo com que suas peles atingissem a palidez comum daqueles seres noturnos. O autor já estava acostumado com a presença daqueles fãs excêntricos em noites de autógrafos anteriores. A bem da verdade, aquilo o divertia.

Plínio sentou-se à mesa, acenando para os ansiosos fãs. Sem perceber, uma dupla fantasiada como um casal de vampiros jovens, saiu por detrás de uma prateleira de livros fazendo performances para assustar o público que ali estava. O escritor notou que era o casal de atores contratados pela editora para agradar os fãs. 

Dessa forma, em meio a cumprimentos e elogios seguiu-se o evento. Aos poucos a fila ia diminuindo, e Plínio, internamente, comemorava o grande sucesso que o livro fazia logo em seu lançamento.

Ao assinar mais um exemplar, olhou para fila que já estava em seu final, e notou mais um de seus exóticos fãs. O rapaz devia ter quase dois metros de altura. Magro, muito pálido e com os lábios num vermelho vivo. Usava um terno negro, com camisa e gravata da mesma cor. Sobre os ombros largos, levava uma enorme capa preta que pendia até o chão “Esse caprichou na produção.”, pensou Plínio. 

O rapaz mantinha um estranho sorriso no rosto. Os olhos pareciam não piscar. Estavam vidrados em Plínio, que sentiu um certo incômodo com a presença do empolgado fã.

Assinou mais seis livros e enfim chegou a vez do rapaz.

- Olá Plínio. Sou um ardoroso fã do seu magnífico trabalho. – disse o homem, com uma voz forte, porém melodiosa.

- Que bom, amigo. Fico feliz em saber. – disse o escritor abrindo a capa do livro para assiná-lo. – A quem devo dedicar?

- Por favor, dedique ao Conde de Turda. 

- Ei, mas Conde de Turda é o nome do meu... – Plínio levantou a cabeça para encarar o rapaz, e esse foi o seu último movimento.

Com os olhos faiscando num vermelho aterrador, o vampiro arreganhou os dentes, e Plínio só teve tempo de sentir um arrepio subir pela espinha ao mirar os terríveis caninos pontiagudos do monstro.

O vampiro cravou os dentes no pescoço do homem com violência, fazendo o sangue pulsante de Plínio jorrar pelo carpete cinza da livraria.

Depois de sugá-lo por intermináveis poucos segundos, o vampiro soltou o homem que caiu sobre a mesa, batendo com força a cabeça numa pilha de livros. O vampiro olhou para os demais presentes na loja, jogou a longa capa pelas costas e saiu da livraria sem dizer nada.

Os fãs, atônitos com a cena, e ainda sem entender o que acontecera, olhavam uns para os outros, até que ouviram iniciar-se uma salva de palmas, que veio crescendo do fundo da loja até chegar aos mais próximos da mesa onde agora jazia o corpo sem vida de Plínio.

Até aquele momento nenhum deles sabia que a horripilante cena que presenciaram, não fora encomendada por ninguém. Não se tratava de nenhuma performance de atores. Era apenas o ato final da vida do escritor.

Lino França Jr.

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