Da boca pra fora


Este fim de semana alguns parentes distantes virão visitar-me. Há muito tempo não os vejo, e eles tem muita estima por minha família. Mas no quintal de minha casa – logo no caminho da entrada – tem um vazamento de água – e dos grandes. Reconheço, à contragosto, que a culpa, na verdade, é minha: a água foi minando devagarinho e eu nem dei muita atenção, e aí foi crescendo, crescendo, e virou esse poção aí. E como eu vou receber visitas com o quintal desse jeito? Farei o seguinte: vou desviar a poça para um lugar em que não fique tão visível, e dar uma melhorada no caminho de casa – anos de vazamento causam um estrago daqueles. Mas aí você me pergunta: Pacheco, não é melhor consertar o vazamento em vez de só mudá-lo de lugar? Pois é, eu também acho.

A prefeitura do Rio está realizando diversas obras de revitalização do centro da cidade e acessos, e em um canteiro de obras de um viaduto na Avenida Brasil (oi-oi-oi!), depararam-se com os "crackudos" – usuários de crack, uma droga fortíssima à base de pasta de cocaína. Acontece que muitos deles foram recolhidos para abrigos da prefeitura e outros tantos fugiram perambulando pela cidade feito zumbis, em plena luz do dia. A prefeitura mostra-se muito preocupada em realizar a internação compulsória dos usuários para tratamento, e a remoção para os abrigos. Remoção? Porque não cuidaram para que o número de usuários não aumentasse? Porque não trataram realmente os usuários como doentes – e não como crackudos – e ofereceram tratamento especializado antes desse "vazamento" se tornar uma poça tão grande? Por que, hein? Porque só enxergaram os crackudos por conta das obras. Por isso ninguém fez nada para ajudar esse pessoal – e nem fará. A ajuda que vier, será insuficiente, não vai alcançar a todos. Esse papo de internação e remoção para abrigos, meus amigos, é só da boca pra fora. Esperem a mídia se esquecer disso para verem o que vai acontecer.

Da boca pra fora também é o programa "Asfalto na porta", do Governo do Estado do Rio de Janeiro, em parceria com as prefeituras. Pelo menos aqui, em Nova Friburgo, diversas ruas foram asfaltadas, entretanto, a maioria, já contava com calçamento – e estavam em bom estado. A ruas, inclusive, ficam em bairros próximos ao centro, o que garante a visibilidade da obra para quase a cidade inteira (como as ruas dos bairros Braunes, Perissê, Cordoeira e Catarcione).

Sabem aquela velha história de que político adora reformar praça, em vez de fazer o saneamento básico, porque a obra da praça é mais visível? Pois é. Os locais parecem ter sido escolhidos com esse propósito. Grande parte dos bairros da cidade – sobretudo os mais distantes – tem entre 30 e 40 por cento de ruas sem calçamento. O bairro de Nova Suíça, que constitui rota de fuga do trânsito do centro da cidade (o bairro em questão dá acesso à zona sul da cidade, passando pelos bairros de Varginha, Ponte da Saudade, Catarcione, e Braunes), tem apenas as principais ruas asfaltadas – muito mal asfaltadas, diga-se de passagem.

O programa, é bem verdade, tem seus méritos. Quanto a eles, não posso me calar: o final da Rua Romualdo Machado, no Catarcione, que fora trajeto de ônibus para alguns bairros, devido a queda de parte da Estrada para Amparo. Esse trecho não contava com calçamento, e agora tem pavimentação asfáltica. Foi o que ocorreu também à estrada Catarcione – Varginha. Contudo, torno a repetir, o programa não alcançou quem mais precisava e essa história de Asfalto na porta é da boca pra fora, para inglês ver, conversa para boi dormir.

E a chuva já vem vindo, a galope. Quase todas as tardes tem chovido. E como ninguém teve coragem, ninguém se deu ao trabalho de desentupir os bueiros (e alguns tem o péssimo hábito de jogar lixo nas ruas), tem sido frequentes os alagamentos no centro de Nova Friburgo. Aliás, um muro de conteção (refeito após a tragédia de 2011) se rompeu na localidade de Granja Spinelli, alagando algumas casas e impedindo o acesso de ônibus. Sabem o que o Secretário de Obras Clauber Domingues disse, quando procurado pela equipe da Intertv? "O muro será refeito". Senhor secretário, se não tem nada a dizer, não diga nada. As pessoas que foram atingidas pela queda do muro não querem saber se o muro será refeito. É evidente que isso acontecerá. O que eles querem saber é quando vai acontecer. Elas querem um prazo. Isso, o senhor não disse. Mais uma para minha coleção de "da boca pra fora".
E o caso da distribuição dos royalties do petróleo? Cuidado, você pode estar sendo manipulado. A mídia tradicional e o Governo do Estado do Rio de Janeiro (outra vez ele!) estão fazendo um estardalhaço danado para induzir o Zé (o povo) a tomar partido nessa briga, mais uma vez. Estão dizendo que o "o Rio está sendo roubado" (mais uma vez, da boca pra fora). Você, caro eleitor, acha justo o Rio ficar com a mesada só para ele, tendo mais vinte e cinco irmãos – e mais o Distrito Federal – alguns passando dificuldades? Acha justo revitalizar a área portuária enquanto  há crianças passando fome pelo interior do Nordeste? Abre teu olho, Zé. Se você acha isso justo, devo dizer que iniciarei uma campanha para mudar o nome da estatal: em vez de Petróleo Brasileiro (PETROBRAS), passará a se chamar Petróleo Fluminense (PETROFLU) ou, ainda, Petróleo Carioca (PETROCA). Você escolhe.

Royalty é uma palavra inglesa derivada da palavra "royal", que significa "aquilo que pertence ou é relativo ao rei, monarca ou nobre". Na antiguidade, royalties eram os valores pagos por terceiros ao rei ou nobre, como compensação pela extração de recursos naturais existentes em suas terras, ou ainda, pelo uso de bens de propriedade do rei, como pontes ou moinhos. No caso do petróleo e do gás, o royalty trata-se da compensação financeira paga ao proprietário da terra ou área em que ocorre a extração ou mineração de petróleo ou gás natural. (Wikipédia). 

Assim, ele deveria ser uma espécie de abono, os governos não deveriam contar com essa grana como "remuneração". O problema é que estão contando, e com a redistribuição da grana, o Rio de Janeiro vai sofrer um colapso orçamentário na faixa de bilhões anuais. Já podemos considerar isso mau uso do dinheiro público. O problema maior, é que quem vai sofrer isso será somente a população. Contudo, se há que se fazer justiça, é um preço que se deve pagar.
Assim, já podemos fazer breves considerações:
  • os usuários do crack (não concordo com a denominação crackudos, acho uma tremenda falta de respeito. Eles são gente!) não ficarão nos abrigos, pois a maioria vai fugir. Uma minoria será tratada. Os outros, vão para qualquer outro lugar que não seja debaixo dos narizes dos futuros turistas do Carnaval/Rock in Rio/Copa do Mundo/Olimpíadas.
  • a reurbanização dos bairros de Nova Friburgo foi uma promessa de campanha do prefeito eleito, Rogério Cabral. A conferir.
  • os royalties serão redistribuídos, não tem jeito Sérgio Cabral. A não ser que haja uma virada política das boas – o que não duvido que possa acontecer (é certo que há outros interesses nessa história). Mas minha esperança é que o Governo do Estado daquele menino que está morrendo de fome, tenha mais recursos para melhorar as condições de vida da população. Se ele vai utilizar bem (ou não) o dinheiro, aí já é outra história.
Mas o que mais me preocupa nisso tudo é que o povo está sendo feito de bobo, por um e por outro. E ainda mais: às vezes, são vidas que estão em jogo. Muita pouca coisa foi feita para defender a população da ameaça das chuvas. Vide os alagamentos e desabamentos nestes últimos dias. Isso é apenas a ponta do iceberg. O que acontecerá até as águas de março, fechando o verão?
 
Por isso, ficai atentos. Tem muita gente fazendo, falando, prometendo, redistribuindo, da boca pra fora (só para inglês ver). Só nos resta aguçar nossos sentidos para entender isso.

Nota 1: Eu sei que não tem nada a ver com o assunto da crônica, mas eu não tive oportunidade antes. José Serra vai ter que tentar a carreira de médico. O cara tentou ser presidente, e não ganhou; tentou ser governador, e não ganhou; tentou ser prefeito, e não ganhou. O negócio é tentar ser médico. Ou então tentar dominó, pembolim...
Nota 2: O prefeito eleito de Nova Friburgo, Rogério Cabral, começou bem. O homem convocou uma reunião com doze prefeitos da região serrana, que se realizou na tarde de 06/11, no Hotel Buscky, em Nova Friburgo. Na reunião foram discutidas parcerias e soluções para problemas comuns aos vários municípios da região.

Nota 3: Rogério Cabral parece gostar do número doze (terá alguma coisa a ver com sua forte religiosidade?). Ele nomeou uma equipe de 12 médicos para avaliarem a saúde pública do município e apresentarem propostas para cada um dos problemas levantados.

George dos Santos Pacheco

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