Café Literário: Amor a dar com o pau


Também te amo… Está bem, está bem…, amanhã a gente se encontra; beijo. - disse Daniela apressando-se em desligar o telefone. Não é que não gostasse de conversar com Maurício, mas é que as vezes sentia-se sufocada por ele; sua voz, seu cheiro, suas idéias, tudo era bom demais… Seus pais amavam o futuro genro, afinal, um rapaz trabalhador, esforçado, atencioso, carinhoso, sério, e inúmeras outras qualidades, não se encontrava em qualquer esquina, ela havia tirado a sorte grande, por isso, deveria cuidar de não perder o bom partido. Mas o fato é que Daniela não compactuava com os anseios dos pais, sentia-se infeliz, pois, a felicidade extrema lhe angustiava, queria mudar de ares e atitudes, encontrar novas pessoas, fazer novos amigos, sentia um profundo desejo de liberdade, e Maurício era sua prisão.

Estava decidido: segunda feira terminaria o namoro, sem muitas explicações, simples assim: “Acabou, preciso seguir minha vida”! Ele teria que entender e respeitar sua decisão. Então, aproveitou a preguiçosa tarde de domingo para reunir todos os presentes e cartas que recebera de Maurício durante os cinco anos de namoro, não queria que ficasse nada para trás, o passado pertencia ao passado, e o futuro se apresentava como inspiração. Não é que não gostasse de namorar Maurício, mas o rapaz lhe trazia segurança demais; trabalhava, estudava, fazia planos de ter filhos, pagava a prestação do apartamento que logo seria o perfeito lar dos dois.

Daniela queria mais; queria menos, queria sentir-se insegura, desejava desconfiar do namorado, queria precisar olhar a agenda de seu celular, ansiava desesperadamente encontrar mensagens de outras garotas em seu facebook. “Meu Deus! Como conviver com tantas certezas?” Se ao menos ele lhe desse algum motivo… Como poderia confiar em alguém assim?, acima de qualquer suspeita. “Ele deve ter algo a esconder, por isso, se esforça em parecer insuspeito…” De qualquer maneira, isso não importava mais, pois, estava decidida que no dia seguinte, acabará com todo o seu sofrimento, lhe dirá que não é justo que ela conviva com essa dúvida a perturbar-lhe o coração…, ela necessitava da segurança que somente a incerteza é capaz de trazer ao relacionamento, e isso, Maurício não podia lhe oferecer. Ele não entendia – ou fingia não entender – o quão cruéis eram suas atitudes benevolentes, o quanto o seu comedimento fazia com que Daniela se apagasse, murchasse, se extinguisse gradualmente, fazendo com que deixasse de sentir-se mulher. Por isso, Daniela ambicionava experimentar o ódio, como quem busca o ar, precisava sentir que em suas veias corriam sangue, e esse sangue queria pulsar. “Pelo o amor de Deus!, eu não suporto mais esse amor perfeito! Preciso sentir-me viva!…” Sua alma de mulher necessitava saber que o namorado era um crápula, precisava desmascará-lo, transformá-lo em homem, para depois, como homem,  vê-lo arrependido, implorando pelo perdão de sua mulher, e, após alguns dias de fúria implacável, ela o perdoaria, e na noite do perdão, os dois se amariam ardentemente, e seus corpos se entregariam completamente ao prazer, à sensação de êxtase que somente a culpa e a imperfeição são capazes de proporcionar. Assim, sentir-se-ia finalmente; como mulher.

M.M.M.

Marcio Mendes 

Marcio Mendes 36 anos é escritor, e nas horas vagas também se dedica a ser sociólogo e professor. Mantém o Blog nos olhos, onde publica seus textos:

“Contos, crônicas, poesias e outras tragédias humanas. Escrever para um blog está sendo uma experiência difícil, talvez porque seja mais simples escrever um livro, com histórias já acabadas, do que expor, em tempo real, o que vai surgindo, sem tempo para reflexões mais prolongadas, entretanto, esta é exatamente a proposta de manter na web o Blog nos olhos: expressar sentimentos com poucos filtros.”

Blog: http://blognosolhos.wordpress.com/

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