Café Literário: Repetidas colheitas envelhecem os campos


Embora tenha vivido poucas primaveras, Nádia já não tinha mais o rosado da face de mocinha. Todavia andando apressada pela estrada das Nove Rotas, sem os filhos menores a puxar seu vestido, seu passo ganhava força e seu rosto escondia um brilho mancebo.

Devido à rapidez do andar, o suor misturava-se com suas lágrimas que caíam por dentre duas montanhas de seios outrora inchados de leite, porém ainda espessos e firmes forçavam para fora do decote. 

A tarde se ia e ao entrar no túnel de bambuzais que cercava o caminho, uma sombra escura apontava o breu ameaçador mais à frente, vacilou os passos por alguns instantes, mas pensou no que poderia acontecer se voltasse atrás e seguiu resoluta, afinal, não podia voltar à trás.

Um grito emitido no fim do túnel, dispara seu coração qual tambor. O suor frio percorre seus braços, seus dedos pingam, mas sua cabeça ainda funciona e ela lembra da semelhança do grito de um urutau, só podia ser um destes sacanas e lhe pregar mais um susto, justo quando deveria estar mais calma para enfrentar o que viria pela frente.

O suor lhe arde os olhos e ela os enxuga com seu vestido vermelho. O medo a estava engolindo, justo ela que já enfrentara a mesma situação diversas vezes, agora era tomada por tremores. 

Queria poder xingar a si mesma, mas evitava emitir qualquer ruído para não chamar atenção. Quisera ser forte e fria como sua avó que mexia com sangue, como quem mexe com água, em sua lida de parteira.

Apertou o passo, agora movida pela imagem de sua avó índia guerreira, que mesmo laçada por seu avô Cornélius o cachaceiro, não se quedava sossegada em casa na lida do lar, preferia as surpresas dos nascimentos e até mesmo da morte que rondava com sua foice afiada.

Outro grito de urutau, agora não mais lhe assustava, mas percebeu que enfim chegara o breu total, porém ouvida em seu desespero, pirilampos a socorreram deixando um rastro de luz que a fez andar mais apressada como atrás de um tesouro iluminado e inalcançável.

Pirilampos voam silenciosos e rápidos; começa a correr, afinal eles eram a sua chance, cada segundo valia ouro nesta empreitada. Os seios pulam ao som do coração...tum Tum, mas o os cincerros do som de cigarras disparam em uma altura ensurdecedora.

Agora sua cabeça pulsa cefálica em ritmo de contra ponto ao Tum Tum do coração e somente o som de água batendo em pedra lhe faz lembrar que à frente estão as corredeiras caindo em cascatas em absurda altura vertiginosa.
Precisa se acalmar, não pode voltar atrás, agora teria que enfrentar a pinguela em pleno breu de uma noite nublada, sem lua, nem estrelas e muito menos, os pirilampos, que a esta altura desapareceram.

Sua sobrevivência e a dos filhos dependiam desta coragem que ela iria tirar do fundo de sua alma. 

Apertou o crucifixo no cordão do peito, respirou fundo e foi, agarrou o corrimão de bambu que ela imaginava estar à sua direita, suas mãos tremiam, ela que temia alturas, pelo menos não podia ver o que acontecia abaixo de seus pés, que passo a passo seguiam cautelosos sobre gravetos dispostos como um estrado, assim era a pinguela, balançando ao ranger de velhas cordas contrapondo o Tum Tum de seu coração apreensivo.

O frio das águas socando as pedras aos seus pés, sobe por suas pernas que se arrepiam, ela está no meio da pinguela, percebera que a esteira de paus afundara com seu peso formando um U e ela estava no vértice.

Porém, um estalo às suas costas, arrepia-lhe os cabelos, algo pesado entrara na pinguela e como uma gangorra a lançara para o alto. Seus pés caminham no ar, depois afundam e outro estalo mais forte ainda e ela é lançada novamente no ar.

Um líquido quente e gelado é lançado de suas glândulas e percorre todo o seu corpo, seu coração parece vir à boca embalado por batidas repetidas num batucar acelerado Tum Tum Tum Tum...

As sandálias caem no precipício de águas nervosas e seus pés correm ora no ar, ora nos gravetos da pinguela, alternando no ondular da esteira.

Teme olhar para trás, sente que algo grande se aproxima, mas no breu da noite escura, de que adiantaria, era melhor correr, porém seu coração parece querer romper o peito de tanto bater Tum Tum Tum Tum Tum Tum Tum, suas pernas perderam a força e ela agora está paralisada, chegara o seu fim.

Mãos pesadas seguram seus ombros, Edinho lhe vêm à mente, seu bebê prematuro crescera grande e bonito, porém, surdo e mudo; um barulho a menos naquela casa repleta de crianças.

Nadia vira-se, Edinho a abraça, um tremendo alívio a acomete, concomitante a um silêncio que nem as águas torrenciais a seus pés podem perturbar.
Ele ascende um isqueiro, tira uma vela do bolso, agora o rosto limpo e bonito de seu filho a conforta. Ela sorri e o abraça.

Edinho move a mão em rápidos sinais e lhe dá um telegrama. Ela abre o papel e lê em voz alta:

Meu doce de coco, não adianta vir correndo para a estação, infelizmente o trem quebrou em Tanquinho e não poderemos mais fazer um bacuri na Parada do Pau Duro.
Fica para a próxima ovulada, me aguarde, vou comer gemada de ganso com amendoim e uma garrafada de marapuama com catuaba, genciana e jurubeba do norte, NÃO VAMOS PERDER O BOLSA FAMÍLIA!

Juba Machado
jubamachado@me.com

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