Das coisas que não entendo


Esses dias comprei um livro do Mirisola. Vocês não sabem quem ele é? Uma pena, deveriam saber. Confesso que quando li as primeiras crônicas do livro O Homem do Quitinete de Marfim, os mesmos que ele publicava lá na extinta AOL, eu torci o nariz, “mas que carinha metido”, pensei. Mas aí comecei a perceber que simpatizo com muitas de suas ideias, e seu jeito de escrever. Percebi, então, que todo escritor é um pouco metido e arrogante, que todas as pessoas são um pouco egocêntricas e que o problema disso tudo, é quando essas coisas eclipsam a ética, o bom senso e tudo isso que faz a gente um sujeito bacana.

Talvez eu não entendesse muito bem de crônicas, e de fato, não entendia mesmo. Escrevi contos que achava que eram crônicas, e crônicas que eu achava que eram contos. O fato é que eu escrevia contos-crônicas, naquele estilo do Moacir Scliar – uma obra de ficção, com personagens, enredo, baseada em algum fato real e recente. Daí eu sempre confundia entre um gênero e outro.

Na verdade, são muitas coisas que eu não entendo. Não entendo, por exemplo, a abertura da novela das oito. O que são aqueles homens e mulheres dançando ao som de uma música no estilo caribenho, cantada por Latino? Sinceramente, eu achei que não tem nada a ver, nada mesmo. Aquilo é para representar as passarelas da Avenida Brasil? Terá sido a melhor forma de representá-las mesmo? E a música? Se é para representar o subúrbio do Rio, melhor o funk ou o samba, não é mesmo?

Outra coisa que não entendo é a Autoviação 1001 trocar os ônibus leito, no itinerário Cachoeiras de Macacu – Nova Friburgo, por ônibus de roleta – os famosos “caixotinhos” -  e não alterar o preço da passagem – para baixo, é claro. Onde estão o DETRO e o Ministério Público? Estamos levando gato por lebre e ninguém faz nada. Já pensei, pensei mesmo, em mandar um e-mail para eles, mas não sei porque ainda não o fiz. Deve ser pelo mesmo motivo dos outros: comodismo. A gente nunca quer se envolver, sempre acha que haverá alguém para fazer aquilo que nós deveríamos fazer. Aí ninguém faz.

Por que?

Por que, por exemplo, tem gente que paga um laudêmio caro – bota caro nisso – relativo aos terrenos foros da União? Explico: laudêmio é uma taxa criada pela coroa portuguesa no período colonial. Porções de terra eram distribuídas para quem pudesse cultivar e a Coroa cobrava uma contribuição em troca; essas eram as terras aforadas. Sabem para quem vai essa graninha, que no caso das transações de imóveis correspondem a 5% do valor do imóvel? Para a depilação da Princesa Paola. Não entendo porque temos que bancar ad eternum os caprichos da família imperial. E também não gosto.

Gosto sim, das versões rock de alguns clássicos de nosso tempo – clássicos em minha opinião, que fique claro – como Beat it, de Michael Jackson, gravada por Fall Out Boy; Smooth Criminal, também do Michael, gravada por Alien Ant Farm; Papa Don't Preach, da Madonna, gravada por Kelly Osbourne, Walking on Sunshine, de Katrina And The Waves, e Ghostbusters, de A New found glory, ambas gravadas pela banda argentina Ska-p. E sabem quem fez aquele solo de guitarra de Beat it? Não, não foi o Michael, foi ninguém mais, ninguém menos que Eddie Van Halen.

Mas voltando a falar sobre coisas que eu não entendo, depois que eu li o livro do Marcelo, eu descobri que, na verdade, eu já sabia fazer crônicas – a la Mirisola – vide Mea Culpa; Eu também quero respeito; Os cães e os frangos; Quem não deve, não teme; Tudo é vaidade; e Rubens Ewald Filho, Kristen Stewart e Thor: A Branca de Neve e o Caçador; todas, diga-se de passagem, geniais. Citar a palavra “geniais”, foi de propósito: o Mirisola também se acha genial.

Gostei desse lance, falar o que se pensa é sempre bom. Renato Russo disse, muito sabiamente, em uma de suas músicas: “você finge não vê, e isso dá câncer”. Por isso, se você viu, e está errado, denuncie. E a crônica serve muito bem a esse trabalho. Porque não dá para ser complacente, parafraseando meu novo amigo, Marcelo Mirisola.

George dos Santos Pacheco

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