Lumiar e São Pedro da Serra: Os "Pontos de Mutação" de Nova Friburgo, por Dib Curi

      
"É preciso que Nova Friburgo olhe com urgência e carinho para a proteção e o desenvolvimento sustentável de seus distritos verdes."

Atualmente, a maior porcentagem do turismo de Nova Friburgo vem dos distritos de Lumiar e São Pedro da Serra. A área verde no entorno destes distritos abrange mais de 50% do nosso município. Seu potencial para a sustentabilidade, para o ecoturismo e para a economia da cultura é enorme. Nova Friburgo tem que abrir os olhos para estas pérolas e começar a proteger seus cenários e sua biodiversidade, garantindo qualidade de vida para seus moradores e investindo no ecoturismo e na cultura como alternativa de desenvolvimento para o médio e longo prazos.
Na primeira metade do século XX, Nova Friburgo era considerada um lugar aprazível e bucólico, onde as pessoas vinham descansar e se curar de inúmeras enfermidades, devido ao ótimo clima e ao ar puro. Além disto, era considerada também até a década de 80, uma cidade pacata e serena, com uma qualidade de vida que lhe rendeu o nome de Suíça brasileira.

Desde então, à partir das décadas de 70, 80 e 90, fomos vítimas de um desenvolvimento urbano, cuja falta de ordenação atingiu em cheio nossas principais benesses, principalmente, a nossa qualidade de vida.

Justamente pelas grandes perdas ocorridas e pela experiência negativa de crescer sem planejamento nenhum, existe atualmente uma grande preocupação de pensarmos como será Nova Friburgo daqui há 30 anos, para que não sejamos surpreendidos, mais uma vez, com perdas de identidade e frustrações por não termos tomado nenhuma providência de preservarmos as nossas principais benesses e vocações. Lumiar e São Pedro da Serra são distritos a serem protegidos.Não há dúvida nenhuma que os distritos que mais nos lembram a Nova Friburgo original, da paz de espírito, da qualidade de vida, das comunidades acolhedoras e das belezas naturais, são os nossos quinto e sétimo distritos. Lumiar e São Pedro da Serra, assim como Mury também, que será objeto de outro texto, estão situados num grande cinturão verde que abrange mais de 50% do território de Nova Friburgo.

A partir do início do século XIX, Lumiar e São Pedro foram colonizadas por suíços e portugueses. Embora estejam ligadas ao nosso passado, estas regiões tem muito mais a ver com o nosso futuro. Se Nova Friburgo anseia por um desenvolvimento sustentável com aumento da atividade turística, que gere recursos e mantenha a qualidade de vida, deve ter muita atenção para estas pérolas que são Lumiar e São Pedro da Serra. Precisamos estar atentos ao tipo de desenvolvimento destes distritos, que respeite aquilo que eles já são.

Não podemos esquecer que há um grande eixo rodoviário que passa à apenas 40 km de Lumiar que é a BR 101, que pode ser acessada pela Estrada Serramar. Dois gigantescos empreendimentos estão sendo construídos neste eixo rodoviário. O Comperj, em Itaboraí, e o Porto do Açu, de Eike Batista, em São João da Barra, passando por Campos e Macaé. O friburguense deve ficar muito atento ao enorme fluxo de recursos que passará por esta rodovia, talvez, o maior da história do país. Tudo isto à menos de uma hora de Lumiar. Precisamos ter um bom projeto para defender a nossa biodiversidade e qualidade de vida de um desenvolvimento predatório, mercantil e especulativo. Creio que o esboço de tal projeto pode ser encontrado no texto que se segue.

Por outro lado, estas localidades podem significar o "Ponto de Mutação" para Nova Friburgo, pois simbolizam o futuro verde e criativo que queremos, se formos capazes de preservar o meio ambiente (florestas, cachoeiras e rios) e promover o que elas tem de melhor, que é a sua intensa atividade cultural. As comunidades de São Pedro da Serra e Lumiar são exemplos de um cotidiano cultural extremamente rico, ótimos restaurantes e bares, uma vida noturna muito interessante e excelentes pousadas. Logo, esta região pode se destacar nacionalmente se a comunidade obtiver apoio dos poderes constituídos.

A APA Macaé de Cima

Lumiar e São Pedro da Serra, assim como Boa Esperança, Galdinópolis e Rio Bonito, entre outros, estão situados dentro de uma grande área de preservação estadual, a APA Macaé de Cima. Muitos podem pensar que, por isto, estas localidades estão protegidas da depredação do ambiente e da ocupação desordenada do solo, mas há questões importantes a serem observadas:

1 – O núcleo urbano de Lumiar está sofrendo uma expansão urbana desordenada e São Pedro da Serra também, mas ainda num nível menor. O poder público municipal deve estar presente para fiscalizar construções e loteamentos irregulares e para garantir a ordenação da expansão destes núcleos urbanos. É preciso respeito ao Plano Diretor e Lei de Uso do Solo. Talvez, seja preciso transformá-los em Zonas Especiais de Interesse Ambiental para regulamentar a ocupação urbana, garantindo espaço para praças, vias largas e arborizadas e equipamentos públicos de lazer.

2 – Um dos principais problemas da região da APA é a relação entre as leis ambientais restritivas, os ambientalistas e os agricultores da região. Partindo do princípio que a terra existe para o ser humano viver, é urgente que o poder público municipal estude alternativas viáveis para os agricultores da região poderem se manter em suas terras e continuarem sobrevivendo da agricultura e cuidando do meio ambiente. A solução conciliatória seria o incentivo ao sistema agroflorestal e a agricultura orgânica.

Se o município pudesse garantir um mercado orgânico interno e externo para os agricultores desta região, seria mais fácil convencê-los a fazer a transição da agricultura baseada em agrotóxicos para uma agricultura orgânica, tornando aquele cinturão verde organicamente produtivo, municiando de alimentos saudáveis as escolas municipais, as pousadas e os restaurantes locais e de Friburgo, além de outros mercados externos possíveis.

Outras alternativas viáveis podem ser implementadas como Faculdade de Biologia e Cinema, cursos técnicos na área da cultura, além de centros de estudos em fitoquímicos e plantas medicinais. É preciso estudar alternativas humanizadas para viabilizar a APA Estadual Macaé de Cima. Senão, estaremos incentivando que os agricultores vendam suas terras, aumentando problemas de fracionamentos de terrenos, loteamentos irregulares e favelização.

Despoluição dos cursos de agua

Existe prioridade no saneamento dos rios e cursos de água da região. O governo municipal poderia estudar alternativas para a aquisição coletiva de fossas sépticas. Existem linhas de financiamento para programas deste tipo. Uma compra expressiva de fossas baratearia o seu preço unitário. Somando uma contrapartida do município, e as fossas poderiam sair barato, se fossem parceladas para os moradores destes distritos.

Outras providências:

Não resta dúvida que Lumiar e São Pedro da Serra podem se transformar em modelos de sustentabilidade ambiental, baseados no ecoturismo e na economia da cultura. No mais, a comunidade deve ser empoderada do seu potencial hídrico, fitoquímico e biodiversidade ambiental e humana.

Devemos buscar soluções para os problemas comunitários e urbanos, tais como:

– Remodelação ecoturística da estrada que liga Lumiar a São Pedro da Serra.

– Melhorar o atendimento de saúde em Lumiar e São Pedro, investindo nos "Postos de Saúde" e no programa "Médico de Família".

– Criar em São Pedro da Serra, a partir do ginásio existente, um centro esportivo e comunitário.

- Em Lumiar, viabilizar um centro de educação ambiental, que seja vetor de iniciativas educativas para a população e agricultores locais.

– Elaborar um estudo urbanístico para resolução do trânsito em São Pedro.

– Estimular os pontos de cultura locais como centros de disseminação: "As Mãos de Luz", "A Casa dos Saberes", a "Euterpe Lumiarense", o "Espaço Cultural São Pedro da Serra" e o "Cine Clube Lumiar", entre outros.

– Buscar, junto à concessionária de ônibus, o oferecimento de mais linhas em horários de pico.

- Estabelecer, junto às comunidades parâmetros e apoios que permitam o sucesso da Festa de São Pedro da Serra e da Festa de São Sebastião de Lumiar. 

– Procurar trazer técnicos em ecoturismo e economia da cultura para orientar os empreendedores a pensarem novas maneiras de desenvolver o turismo.


Pacheco também é cultura!

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