Língua de trapo



Chico Telles era um simples faxineiro e apesar de humilde, era muito bem educado. Essa foi a herança que seus pais puderam lhe dar, e afirmavam que era a única coisa que jamais alguém poderia lhe tomar. Era essa educação e honestidade que ele legava também a seus três filhos, o primeiro, que ostentava seu nome, Nelson, e Isaías, todos ainda crianças. Havia ainda mais um à caminho, e torcia para que o próximo fosse uma menina, já que os primeiros eram homens.
Trabalhava na Construtora Bragança, famosa no Rio de Janeiro à sua época. Seu patrão era o Dr. Benjamin Bragança, que conhecidamente soube fazer dinheiro. Foi servente de pedreiro e a partir daí começou sua escalada de sucesso. Conseguiu montar a firma que hoje despontava entre as melhores da cidade. Seu filho, Clóvis, era seu braço direito. Tinha por volta de vinte e três anos, mas já era formado em Administração de Empresas, possuindo o vigor e intempestividade dos jovens.

O faxineiro foi trabalhar como todos os dias. Morava no subúrbio e para chegar à firma, um prédio muito elegante no centro, precisava acordar lá pelas cinco da madrugada. Arlete, sua mulher, lavava roupa para fora, enquanto cuidava dos pequenos levados. Já estava no oitavo mês de gestação e sentia dores nas costas, mas mesmo assim não recusava serviço. Era preciso ajudar o marido, seu salário não era suficiente para tantas bocas.


Chico, que era um homem extrovertido e tranqüilo, causou rapidamente estranheza em sua esposa quando chegou em casa cabisbaixo, pensativo. As crianças ao lhe verem pela janela puseram-se a chamá-lo, como todo santo dia, quando se aproximava o horário de sua chegada.


– Papai, papai! – diziam elas pulando e entremeando-se em suas pernas.


– Boa noite família! – disse ele abrindo a porta, pegando um de seus filhos no colo. Logo os demais também o pediram e ele com dificuldades, segurou os três como pôde, e as crianças gargalhavam. – Espera aí gente! Assim papai não aguenta! – disse ele caindo ao sofá.


– Não vai falar com a gente também não? – disse Arlete se aproximando com a mão na barriga, com um sorriso discreto.


– Boa noite mulher! Boa noite criança! – disse ele beijando sua barriga e depois sua boca.


O homem levantou-se e seguiu para a cozinha com sua bolsa, deixando-os na sala. Sua cara não estava boa.


– Aconteceu alguma coisa? – perguntou a mulher, que o havia seguido.


– Nada não, estou apenas cansado... – disse desconversando.


– Chiquinho, vai cuidar de seus irmãos, vai? – disse a mãe para o mais velho. Conversa de adultos, pensou ele.


O casal entrou no quarto e fechou a porta. Havia só esse quarto na casa, além da cozinha e do banheiro, de modo que todos tinham que se ajeitar ali mesmo.


– Pode falar agora... – disse a mulher num sussurro.


– Acho que ouvi coisas que não devia... – disse ele.


– Do que esta falando? – perguntou ela com ar preocupado.


– É que estava limpando a sala do filho do patrão, depois fui para o banheiro que fica dentro dessa mesma sala. Ele entrou e logo depois vieram outros diretores da firma. Acho que não me viram lá, caso contrário não teriam conversado daquele jeito...


– De que jeito homem? Fale logo! – disse ela aumentando o tom de voz e logo se corrigindo.


– Ouvi o Dr. Clóvis perguntar aos outros sobre quando seria uma tal compra de material. Tinha um ar sarcástico na voz e os outros lhe responderam neste mesmo tom. Disseram que seria hoje à noite, sabiam de um transporte que estava na estrada e que não seria difícil alcançá-lo. Clóvis lembrou-os que deveriam ser o mais discreto possível, seu pai não poderia nem sonhar com isso. Depois ele disse: - “Depois de fecharmos este negócio, faremos os acertos de contas, conforme já estava combinado...”.


– Não entendi direito. Acerto de Contas? Transporte na estrada? Isso está parecendo conversa de bandido... – disse franzindo o cenho.


– Exatamente! Lembrei sobre algumas notícias que ouvi na rádio sobre roubo de carga. É isso que eles estão fazendo, roubando carga. E pelo visto usam o material nas suas obras...


– Meu Deus do céu! – disse ela pondo as mãos no rosto. – Pelo amor de Deus Chico, não se meta com isso!


– Mas eu não me meti! Olha, eu não queria ter ouvido nem metade dessa conversa. Eu estava... na hora errada e no lugar errado... Poxa, o Dr. Benjamin é um cara tão honesto, ele não merece isso mesmo. – disse sentando à cama.


– Amor, esqueça isso! Pelo amor de Deus! Você tem filhos para criar! Alguém te viu lá?


– Acho que não. Depois de encerrarem o assunto eles saíram juntos e eu aproveitei para sair, sem chamar atenção.


Calaram-se subitamente e não falaram mais nada sobre o assunto. Viram uma sombra por baixo da porta. Ao abri-la deram de cara com as crianças, todas juntas, quietinhas, com os olhos arregalados.


– O que vocês estão fazendo aqui? Eu já não disse que é feio ficar ouvindo a conversa dos outros? Vocês querem ficar de castigo? – reclamou ela, ao que os meninos saíram correndo e gargalhando, empurrando uns aos outros. – Está vendo? – disse ela voltando-se para o marido. – São seus filhos!


– Seus também! – disse contendo o riso.


O resto da noite correu normalmente. Parecia que o assunto estava encerrado. 


Mas Francisco não foi mais o mesmo a partir desse dia. Andava inquieto, qualquer coisa o aborrecia. Às vezes ficava longe, absorto em pensamentos. Ele se justificava alegando cansaço do trabalho e isso era uma boa desculpa.

No dia seguinte foi anunciado na rádio um assalto a um caminhão em uma das rodovias que davam acesso ao Rio de Janeiro. Roubo de carga. Exatamente como ele ouviu. Chico foi trabalhar, não como antes. Desconfiava de tudo e de todos. Era difícil conviver com pessoas desse tipo. Sabia que eram corruptos, como lidar com eles? Se você sabe o que está acontecendo e não faz nada, é porque pactua com eles... Esse e outros pensamentos povoavam a mente de Francisco. Seus colegas de trabalho perceberam a diferença do amigo, mas ele dizia que era preocupação com as contas de casa. Ninguém acreditava.


Estava fazendo faxina na sala de Clóvis, como no fatídico dia. Para ele agora isso era um fardo pesadíssimo. Não queria ouvir mais nenhuma conversa. Não queria se envolver no assunto mais do que já estava e para isso fazia seu trabalho o mais rápido possível. Já estava saindo, quando se deparou com o filho do chefe a entrar.


– Bom dia, Chicão... É esse seu nome, não é? – disse ele, trajando terno e segurando uma maleta.


– Bom dia senhor... Sim, esse é meu nome. – respondeu seriamente, sem olhar para os olhos do superior.


– Sabe, é difícil gravar tantos nomes... Na verdade, lembrei do seu porque ouvi uma outra pessoa lhe chamando assim. Engraçado como às vezes a gente não esquece o que ouve por aí, não acha? – disse seguindo até sua mesa. O rosto de Francisco corou.


– Sim, senhor. – disse ele segurando a vassoura firmemente.


– Não parece, mas eu escuto cada coisa por aí! Às vezes escuto o que eu preferia esquecer... Acho que deve ser assim: O que não é da nossa conta, devemos esquecer e pronto. Não acha que deve ser assim? – disse sentando à sua mesa, fitando-o.


– Acredito que sim senhor. Já limpei sua sala. Se precisar de mim para mais alguma coisa... – disse ele inquieto.


– Estou vendo, está ótimo. Faz seu serviço muito bem, parabéns... – disse ele o-lhando alguns papéis sobre a mesa.


– Com licença Dr. Clóvis... – disse ele fazendo uma pequena reverência e saindo da sala.


Estava nervoso. Provavelmente ele desconfiava de alguma coisa. Será que ele me viu sair da sala? Ou alguém o fez e denunciou para ele? – pensava Chico. Não, isso não importava agora. Precisava fazer alguma coisa. Talvez pudesse contar para Dr. Benjamin... Mas ele não acreditaria nisso, tem paixão pelo filho. Nesse caso, era melhor procurar a polícia, eles sim acreditariam em sua história. Mas Clóvis não ficaria preso, tem dinheiro e com certeza contaria com um bom advogado. Um habeas corpus não seria difícil. Ele ia persegui-lo.


Varria os corredores pensando nisso. A demissão seria o passo mais acertado... Clóvis não se sentiria ameaçado e ficaria elas por elas. Em algum lugar teriam uma vaga para Chico...


Decidiu-se. Guardou seu material e foi direto para o setor de Recursos Humanos. Esclareceu motivos irreais, e conversaram muito com ele, mas a decisão já estava tomada. Parou um instante na hora de assinar alguns papéis. Pensou na criança que estava por vir, e em sua família. Agora ele precisava de um emprego mais do que nunca... De qualquer jeito não lhes deixaria faltar nada.


Saiu do prédio com uma profunda sensação de alívio. Não precisava temer mais nada. Estava fora do alcance das garras desses corruptos! Não foi direto para casa, não queria contar para a mulher o que tinha feito. Quando conseguisse um emprego, o faria. Afinal ela já estava no final da gravidez e uma emoção forte poderia lhe fazer mal...


Chegou em casa diferente dos outros dias, estava mais feliz e tranquilo, como nunca havia se sentido. Havia retirado um peso das costas, um enorme peso, um piano. Assim, o fim de semana prometia ser plácido, o início de uma nova era, um recomeço. No domingo pela manhã, sua mulher levantou e já arrumava as crianças.


– Estão se arrumando para quê? – perguntou ele.


– Para a missa, ora essa! – respondeu Arlete passando uma escova no cabelo molhado do filho mais velho.


– Se esqueceu? Hoje não tem missa... – disse ele pondo café na xícara.


– Ora, mas é mesmo... Tinha me esquecido! Você está sabendo mais do que eu que vou sempre à igreja... Viu? Já estou quase te levando para lá!


– Bobagem! Com Deus eu mesmo converso, não preciso de ninguém para me ajudar com isso... – redargüiu ele.


Ouviram um barulho do lado de fora. Não esperavam ninguém hoje... Ficaram atentos e de repente a porta caiu de uma só vez. Um grupo de homens encapuzados entrou pela casa, com armas nas mãos. As crianças choravam desesperadas, enquanto os homens entraram, disparando vários tiros. Arlete abraçou Chiquinho, caindo sobre ele. Nelsinho e Isaías que lhe agarravam as pernas caíram sobre ela. Os tiros não cessaram nem mesmo quando eles já estavam ao chão.


Chicão tentou escondê-los, mas não houve tempo. Saiu correndo pela casa, que era pequena e saltou pela janela. Um dos homens seguiu-o, abrindo fogo pelas suas costas. Ele caiu no quintal, imóvel. O homem misterioso puxou o cão do revólver e pôs na nuca dele, mas ouviu a voz de alguém dentro da casa e foi na direção dela.


– Terminaram? – perguntou um homem bem vestido, sem capuz.


– Terminamos Dr. Clóvis, agora vamos embora antes que chegue alguém... – respondeu um dos homens.


O tal homem aproximou-se da pilha de corpos e chutou a cabeça de uma das crianças.


– Isso é o que acontece com gente que sabe demais... Vamos embora... – disse ele saindo. Os outros homens seguiram-no, deixando para trás um rastro de sangue. Uma família que desaparecia em plena luz do dia. Tudo por estar na hora errada, no lugar errado.

George dos Santos Pacheco

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