Sou escritor, não tenho dinheiro

Participei há algum tempo de uma seleção para compor um livro de poesias. Esse gênero sempre me empolgou, mas nunca havia me arriscado a tecer palavras com essa afeição. Pois bem, arrisquei-me. A premiação incluía um valor em dinheiro e a publicação em um livro de poesias. Incluía a exigência de um pseudônimo e eu criei o Fernando Quintana. Tudo bem, eu nunca gostei muito desse negócio, parece que se trata de outra pessoa, me senti com dupla personalidade, mas enfim, providenciei o pseudônimo e a poesia "Na encosta verde das matas" e junto com ela acabei produzindo outras, e também fábulas que assinava como o tal Fernando Quintana.

Eis que um dia me chega a notícia do resultado do concurso e eu não fui selecionado. Poxa, eu levava tanta fé no meu poema, mas tudo bem, a comissão julgadora avaliou assim, preciso conter meu ego. Mas ainda no e-mail do resultado do concurso, o pessoal me convidava para integrar a publicação, mas nesse caso, eu teria que entrar com uma grana, que podia ser dividida em até três vezes.(!)

Porra! Odeio pagar para entrar em uma publicação. (Dinheiro é lá com o Jô Soares, com o Paulo Coelho...) Para começar não tenho dinheiro (eu já disse que sou escritor?) e o pouco dinheiro que eu tenho é justamente para minhas necessidades e de minha família. Dessa forma, eu não posso e não tenho condições de remanejar valores para aplicar em meu textos. Fazer, o quê? A vida é assim.

O mesmo vale para algumas editoras - que até são bem intencionadas - mas cobram uma participação do autor na edição do livro. O problema maior não é este, o problema que o valor é muito alto. Um romance curto chega a custar 35 mangos, isso se você não contratar o serviço de revisão. Não podemos esquecer que as editoras são empresas, e que vivem de lucro, comércio, mas tudo tem limite. Como nós escritores procuramos editoras como insetos em volta da lâmpada, alguns pagam por isso, eu já paguei, mas chega um momento que isso fica inviável. Justificam afirmando que quem paga não é o autor, mas sim os leitores que compram nossos livros (num prazo de um mês o cara precisa vender em torno de trinta livros - para mim o cara que faz isso é praticamente um best-seller).

Portanto meus amigos, não gosto de pagar para a publicação de meus livros (se eu tivesse recursos para isso, pagaria feliz e sorridente) e continuarei minha vereda em busca de alguma editora que se arrisque a investir em mim. 

E chega desse negócio de Fernando Quintana!

Meu nome é Pacheco, George dos Santos Pacheco.

Vide a poesia:

"NA ENCOSTA VERDE DAS MATAS
Na encosta verde das matas, da alta serrania, por entre beijos, lírios, ipês, e perfumes, se esconde aquela que desponta na manhã. Nos bosques úmidos de orvalho terno, onde os pássaros gorjeiam como em nenhum outro lugar, os beija-flores, com seus voos magníficos, te saúdam, brilhante na aurora ensimesmada, repleta da névoa fugaz que parece escorrer pelos dedos de quem a espera cativar.
Teus rios frescos, cristalinos e românticos serpeiam por ti, presenteando-te curvas dignas de Afrodite, e aqueles que a contemplam soem se apaixonar. Teus ósculos são gentis, teus abraços, belos e cálidos. Não há quem resista a teus encantos, oh minha senhora e menina. Não há neste mundo quem não se apaixone por ti, quem não sinta saudades de ti, mesmo sem te conhecer.
Mas eis que, no negrume da noite, as portas do céu se abriram, e as águas que permanecem intocáveis acima do firmamento desabaram sobre ti. E teus filhos clamaram por ti: “Terá, por ventura, nossa senhora se irado conosco?” – disseram.
Onde estão teus filhos agora, doce menina?
Será que algum dia tornará a vê-los e eles se lembrarão de ti, tão doce e cativante?
“És inesquecível!” – dirão. “Não te amofines por nós, pois junto com as águas desceram anjos que nos levaram de ti segurando-nos pelas mãos. Volvendo nosso olhar para trás, fomos chorando de saudade”. Mas dissemos: “Não maldigam nossa senhora, não terá ela culpa alguma”.
E tendo cessado o pranto que desabou sobre ti, os beijos, lírios, ipês e jasmins tornarão a se abrir, perfumando a tudo com suas cores vivazes. A névoa carregada pela brisa graciosa, sofregamente, nos beijará e tu despontarás ainda mais bela pela manhã, tu que te escondes na encosta verde das matas.
Oh! Senhora e menina, teus filhos não te olvidarão jamais!"  
(Não ficou maneirinha?)

Pacheco também é cultura!

2 comentários:

  1. Vida de escritor é dificil demais. E quando se está começando [no sentido editorial, e não literário] é algo sofrido.

    Já desisti várias vezes. Mas não em definitivo.

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  2. Maurício C. Dovanci1 de outubro de 2012 00:49

    Eu, particularmente gostei muito como você escreveu o poema, mas achei que para a suavidade de todo o conteúdo você deveria ter sido menos coloquial, pois causa um bloqueio na corrente que liga o poema com o leitor cada vez que se deparar com sinônimos, É LINDO, amo sinônimos, mas temos que saber quando e onde empregarmos, um poema com exagero de sinônimos pode destruir uma grande obra, crie um novo tempero, esta comida é muito exótica e saborosíssima para paladares mais aguçados.

    OBS: Estou ajudando a compartilhar o site, pois o conteúdo é demais!

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