O currículo como ferramenta de exclusão social


O sistema educacional brasileiro apresenta baixos índices de conclusão do ensino básico, com altos índices de evasão e repetição, e acentuadas disparidades educacionais entre as várias regiões. Essa baixa qualidade da educação, principalmente a pública, é ligada a uma ineficiente administração e gerenciamento educacional, uso insuficiente e impróprio dos recursos financeiros e principalmente à estratégias de ensino, conteúdos programáticos e avaliação do desempenho escolar inadequados, consolidados através de um currículo completamente distorcido do contexto atual.

Novas políticas e estratégias educacionais são, portanto, exigidas para reverter tal situação, mas faltam aos seus formuladores informações precisas, sistemáticas e padronizadas sobre o desempenho do sistema educacional. Neste sentido, pretendemos neste trabalho iniciar reflexões sobre o papel do currículo como ferramenta de exclusão social, conseqüência da prática pedagógica desvirtuada adotada pelo nosso sistema educacional.


Segundo MAMMARELLA (2000, p.52) exclusão social identifica "os grupos e indivíduos que vêm sistematicamente perdendo seus direitos de cidadania, que se encontram carentes dos meios de vida e fontes de bem-estar social, com baixíssimos rendimentos, falta de moradia, de acesso à educação e saúde, e que não encontram meios de se inserirem no mercado de trabalho".

Ao Estado Moderno é atribuída uma função redistributiva, pois ele deve assegurar as políticas globais e articuladas como moderadoras das desigualdades sociais e econômicas e de responder ao aumento das demandas no contexto de uma maior divisão do trabalho e expansão do mercado na sociedade de massas. A educação é portanto, dever do Estado e direito do cidadão, pois sendo concebida como valor social, reflete-se como instrumento da sociedade para efetivar o processo de formação e construção da cidadania.

Segundo FREIRE (1987), "ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo", ou seja, a educação problematizadora e como prática de liberdade, exige de seus personagens uma nova concepção de comportamento. Ambos são educadores e educandos, aprendendo e ensinando em conjunto, mediatizados pelo mundo.

Seguindo essa linha, o educador passa a ser o educador problematizador, que desafia os educandos que são agora investigadores críticos, permeados por constantes diálogos, pois a educação como prática de liberdade deve negar o conceito de isolamento e abstração do ser humano, assim como tornar o mundo uma presença constante em seu diálogo.

DISCUSSÃO - O papel do currículo dentro desse contexto é, portanto, naturalizar a seleção cultural. Torná-la senso comum, fazendo com que esse conhecimento representado seja resultante da tradição (os valores mais reconhecidos são os valores mais cultivados). Essa naturalização que deveria ser fruto de um processo sem interferência de indivíduos isolados e conseqüência da participação e integração de toda a sociedade, acaba sendo o resultado da tradição seletiva de uma classe dominante que escolhe os aspectos da cultura mais convenientes dentro da sua concepção e visando seus interesses, para serem transmitidos à sociedade pela escola, em virtude da escola ter a capacidade de tornar popular o conhecimento.

Segundo FORQUIN (1993, p.14) "toda educação, e em particular toda educação de tipo escolar, supõe sempre na verdade uma seleção no interior da cultura e uma reelaboração dos conteúdos da cultura destinados a serem transmitidos às novas gerações". Essa nova geração será portanto, apresentada ao mundo com base em valores e princípios determinados por um grupo específico, através do currículo.

O currículo transmite uma parte da cultura, a que passou pelo crivo e se transformou em tradição, ou seja, a considerada como digna de ser aprendida. É a escola a responsável pela transmissão desse currículo, e também pela transformação, reorganização e reestruturação desses conteúdos em algo assimilável a nova geração, a fim se serem recebidos sem maiores problemas.

O currículo é assim, "documento de identidade" (SILVA, 1999, p.150), reflexo do momento histórico em questão e diretamente vinculado as relações de poder, a organização e estruturação da sociedade, e a visão de mundo do grupo social dominante.

O currículo pode ser tudo, menos neutro. Ele é sempre o resultado de uma seleção feita (por indivíduos que desejam manter o seu status quo) sobre o conhecimento de um todo.


A maneira de como realizar essa seleção e como esse resultado será transmitido às novas gerações está intimamente ligada a relação de subordinação e domínio da sociedade. É dentro dessa perspectiva que o currículo pode ser (ou é?) utilizado como uma ferramenta de exclusão dos indivíduos pertencentes as demais classes sociais que não estão na dominante.

APPLE (1994, p.61) já afirmava "A escola torna-se uma escola de classes sociais", pois o currículo transmitido em escolas onde os indivíduos pertencem a classe dominante são completamente distintos dos conhecimentos das escolas das outras classes. A didática ensino/aprendizagem como opção única da escola é algo feudal, tipicamente de cima para baixo, solidificando o conceito de "educação bancária", onde aprender, como papel exclusivo do educando significa cristalizar a atitude de submissão e obediência. O educador, o "verdadeiro" educador, não precisa dessa submissão. Enquanto não se perceber que a didática deve ser estratégia emancipatória, educação representará o passado.

Fundamental é reconhecer que, hoje, posições rígidas apenas fossilizam o conhecimento, que é o fator motor principal da nova sociedade globalizada. O centro da inteligência é aprender a aprender, saber pensar, ser crítico e analítico. Esse deve ser o centro da educação, e é dentro dessa perspectiva que o currículo deve ser pensado.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

APPLE, M. W. A política do conhecimento oficial: faz sentido a idéia de um currículo nacional? In: MOREIRA, A. F. e SILVA, T. (org.) Currículo, cultura e sociedade. São Paulo: Cortez, 1994 (p.59 a 87).
FORQUIN, J. C. Escola e Cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Artes Médicas, 1993.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
MAMMARELLA, R. Exclusão Social. Revista Mundo jovem. Abril/2000. p.52-3.
SILVA, T. T. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. BH: Autêntica, 1999.
1-  Professor Adjunto IV do Curso de Odontologia da UFPA - Disciplina de Odontologia em Saúde Coletiva - Mestre em Clínica Integrada pela USP-FO - Especialista em Saúde Pública - Izamir@nautilus.com.br
2-  Professora Assistente II - Especialista em Endodontia e Dentística - Mestre em Clínica Integrada pela USP-FO. marizeli@nautilus.com.br


Pacheco também é cultura!
 

Um comentário:

  1. Um currículo bem armado fala muito da pessoa, e até pode conseguir uma entrevista de trabalho com boas possibilidades só por isso.
    Qualquer pessoa ou profissional da dentistica tem que ter um CV bem feito.

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