O amigo da Onça

A floresta estava um caos. Os animais não se entendiam direito, brigavam entre si, roubavam uns aos outros, jogavam lixo em tudo quanto é lugar. A balbúrdia estava instalada e não parecia haver nenhuma solução para situação tão complicada. Os bichos se extinguiriam por eles mesmos!

Foi então que, reunidos, os animais chegaram à conclusão de que precisavam de alguém para defender seus interesses, representá-los, ser juiz, e tentar dar um jeito naquela bagunça.

– Eu posso representar os animais! Meu canto vai tranquilizar a todos, sou valente, a floresta vai voltar a ter paz! – disse o Bem-te-vi estufando o peito amarelo.

– O Pituã não poderá ser nosso representante! Ficará somente cantando, se esquecerá de suas responsabilidades! – argumentou o Macaco. – Eu serei melhor representante! Sou esperto, rápido, e me dou bem com todo mundo. Não há melhor representante do que eu!

– Ora, o macaco não tem condições de ser nosso representante. É um gaiato, não leva nada a sério. – disse o Papagaio. – Eu representarei a todos muito melhor. Sou um orador por natureza, falo muito bem em público. Posso conseguir mais recursos para nosso habitat, e haverá progresso nunca antes visto na história dessa floresta! – concluiu ele de forma eloquente.

Foi então que pousou o Urubu no meio deles e tomou a palavra:

– Por que não elegem a Onça? É esperta, rápida, valente e impõe mais respeito do que todos os animais juntos. Não há melhor representante do que ela. – disse ele sem muita empolgação.

Naquele momento houve silêncio, todos ficaram meditando essa possibilidade. Procuraram pela onça, e ela estava deitada sobre um enorme galho, com as patas cruzadas, um pouco ofegante, parecendo alheia a toda aquela discussão. Não houve ninguém que desmentisse o urubu e ninguém que fizesse oposição à candidatura da onça. Então a elegeram.

As coisas pareciam estar entrando nos eixos, a floresta gozava de uma relativa calma, contudo, repararam que muitos animais estavam desaparecendo, e isso se tornou algo muito preocupante.

– Alguém viu o Jabuti, a Arara, ou Preguiça? – perguntou o Papagaio, preocupado.

– Ora, a Preguiça deve estar dormindo por aí. Ela só sabe dormir! – gritou o macaco, de cima de uma árvore, explodindo em uma sonora gargalhada.

– Não há motivo para risos, isso é coisa muito séria. – retrucou o Papagaio com semblante sério. – Também sinto falta do Bem-te-vi, alguém o viu por aí?

– Ouvi dizer que a Preguiça e o Bem-te-vi estavam tendo problemas, ela não estava conseguindo dormir porque o Bem-te-vi não parava de cantar, e ambos foram levar o problema para que a onça resolvesse.

Desconfiados, os animais que restaram foram procurar os outros pela floresta. Vasculharam todos os cantos, mas nada de encontrar seus irmãos perdidos. Então chegaram ao ninho do Urubu, outro animal que estava sumido há tempos.

Chegando lá, encontraram várias penas do Bem-te-vi e da Arara, um casco vazio do Jabuti e muitas outras evidências de outros animais. O Urubu bem que tentou fugir, mas o imprensaram e ele entregou tudo: os animais estavam sumindo porque a onça estava devorando a todos. Ela tinha contratado o Urubu para ser seu cabo eleitoral, prometendo que dele seria o que sobrasse de seu banquete. E o Urubu que não era bobo nem nada, aceitou na hora.

Moral da história: Conheça muito bem seus representantes. Pode ser que você acabe sendo devorado por eles.



“O homem de palavra fácil e personalidade agradável raras vezes é homem de bem.” Confúcio

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.