I've Got You Under my Skin, por Gui Mallon

Frank Sinatra na década de 30,
preso por andar com mulheres casadas

Entre as canções mais emblemáticas da música popular americana do século XX situa-se I've Got You Under My Skin como uma das mais populares.

Composta por Cole Porter em 1936, alcançou o sucesso que a tornou um standard imprescindível na voz de Frank Sinatra, dez anos depois, em 1946. No link abaixo podemos ver uma interpretação irretocável do cantor, no auge da sua carreira, para a rede de tv ABC.

 
Muitas vezes me perguntei o porquê da música pop internacional ser dominada até hoje pela língua inglesa. Há várias hipóteses, entre elas a que parece mais plausível é a de que esta tendência acompanharia ainda o monopólio inicial imposto pelas indústrias fonográfica e cinematográfica, inauguradas no início do século passado. Os primeiros a explorar o mercado estabeleceram os padrões de consumo, de produção e os sistemas de difusão e distribuição; terminando por criar mercados cativos e aculturados. Excessões não quebram a regra, apenas a justificam; como foi o caso do tango na década de 30, do surto de música caribenha (rumba, salsa) no final da década de 40, da bossa nova na década de 60, da era do rock-pop inglês iniciada também na década de 60, etc. Todos estes produtos mais ou menos aculturados foram embalados ao modo americano. A "America" aqui, até então, vista como terra de criatividade, liberdade e dinamismo cultural imbatível.

I've Got You Under My Skin pode ser entendida como a afirmação plena de um modus vivendis. Sinatra, quando gravou esta canção, estava no ápice do fenômeno que protagonizou e inaugurou; como primeiro ídolo de jovens adolescentes fanatizadas, abrindo um mercado que foi explorado mais tarde por Elvis Plesley, os Beatles e muitos outros.  A letra  fala de amor romântico de uma maneira sensual, quase que explicitamente erótica, fazendo uma relação ambígua entre o "amor interiorizado, dentro da pele" com o "amor de pele". A música retrata o sentimento da geração da Segunda Guerra Mundial, que, após presenciar por seis anos o espetáculo macabro do extermínio de 50 milhões de seres humanos, ansiava agora pela "vida". Viver a vida intensamente, sem limites, expandir, amar, procriar, etc.

Muitos aspectos da cultura contemporânea são ainda determinados por aquela tendência do pós-guerra. A mais importante é a que mudou o paradigma existencial mais fundamental da vida dos nossos avós: a relação entre objetivo e tempo. As gerações anteriores faziam planos para muitos anos; casar (relação sólida), obter um emprego sólido e comprar um imóvel de moradia a prazos de perder de vista. Alguns entre nós ainda podem, talvez, ter vivenciado estes valores que vão se tornando obsoletos. Mas o que se estabeleceu cada vez mais como tendência dominante no pós-guerra foi o "Aqui e Agora". Essa tendência se amplia com a crescente expansão do ateismo e do pragmatismo. Ela explica desde a cultura das drogas até a super obesidade atual.

Estamos vivenciando agora o "Fim do Mundo". Pelo menos daquele mundo subjugado inteiramente ao domínio econômico, político e cultural do CASE-consenso anglosaxão europeu. Os monopólios políticos culturais vão se rompendo. Mas sabemos que os espaços vazios, na dinâmica histórica, tendem  a ser ocupados por alguma outra coisa. O que virá? Ou melhor, existe ainda algum espaço vazio a ser ocupado nesse nosso mundo pós-demográfico?

Frank Sinatra cantando I Got You Under My Skin:



Pacheco também é cultura! 

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