O Cruzeiro

 

Friburgo não passava de uma cidade do interior com algum potencial turístico em 1960. Era um município em franco crescimento, devido a instalação de indústrias têxteis e metalúrgicas, que a essa época, funcionavam a todo vapor. Sua população era a metade do que é hoje, e a urbanização havia chegado a muitos poucos bairros. Era muito mais arborizada, muito mais fria, e suas estações eram bem definidas. Acho que naquela época tudo era mais bonito. Até as ruas sem calçamento tinham seu charme – o que hoje é intolerável para alguns friburguenses. Talvez fosse o olhar de uma criança, para a qual tudo é muito fantástico.

Eu tinha quatro anos, mas me lembro muito bem de tudo que aconteceu naquela noite. Podem protestar, mas eu recordo melhor coisas que me aconteceram há mais de quarenta anos do que há vinte minutos. Gargalhem, podem gargalhar.

Éramos muito pobres, meu pai trabalhava de pedreiro – profissão que acabei herdando – e minha mãe de lavadeira (que tinha como auxiliar para entregas ninguém menos do que eu). Eu e meus quatro irmãos dormíamos juntos na mesma cama, e nas noites de inverno mais castigantes, aquecíamos uns aos outros sob roupas malcuidadas. Era o mesmo que nada, sobre tudo quando Wilson, o caçula, mais novo que a mim dois anos, urinava na cama.

Naquela noite, minha irmã mais velha havia saído para ir à casa de meu tio Júlio Torres, meio irmão de meu pai, Waldemiro Pacheco. Imaginando que ela fosse dormir por lá, meus pais nos puseram na cama – não pensem com isso que o velho Waldemiro era muito carinhoso àquela época não, pois as varadas-de-marmelo-sem-justa-causa doíam mais que uma martelada no dedo – e também foram dormir.

A noite já ia alta – é bem verdade que devia ser apenas dez horas, mas isso era demasiado tarde para 1960 – quando meu pai ouviu um grito desesperado ao portão da casa, e logo imaginou que se tratava de Maria, sendo atacada por um tarado, talvez. Ele podia ter pensado ser um ladrão, não? Mas naqueles tempos não havia tanta violência. (E depois dos quarenta, fantasiamos que tudo antigamente era mais justo, mais bonito e pacífico).

Waldemiro levantou-se depressa, pegou o revólver já carregado, e se dirigiu ao portão. O nevoeiro era baixo e a respiração condensava a frente do rosto. Encontrou minha irmã caída ao chão, desmaiada; tomou-a nos braços e voltou rapidamente para casa. A essa altura já estávamos todos acordados e chorando assustados. Minha mãe estava aflita, caminhando de um lado para outro sobre o chão “vermelhão”, e também desmaiou, tão logo meu pai e irmã entraram no casebre.

Papai deixou Maria ainda desacordada sobre a cama, e seguiu para socorrer minha mãe. Quando tocou sua pele fria, ela acordou subitamente, e segurou-lhe os braços com uma força descomunal. Seus estavam rubros uma fornalha, suas feições estavam distorcidas assim como sua voz, tão característica por sua delicadeza.

– Você devolva o que não te pertence...
– Do que está falando Florípedes?
– Você devolva o que não te pertence! – repetiu ela com a voz mais grave, e segurando-o com mais força. Estremecíamos ao ouvir aquela voz medonha. Maria, a mais velha, e a única capaz de nos dar algum conforto naquele momento, permanecia desmaiada e isso nos causava muito mais pavor.

Meu pai jogava no bicho todos os dias, era um viciado nesse jogo. Vez em quando trazia uns trocados para casa, embora na maioria das vezes não ganhasse um cruzeiro apenas. Além disso, era um sujeito turrão e abusado, do tipo que não perde uma briga e não deixa insulto sem resposta. Ao ouvir a determinação da possessão de minha mãe, ele retrucou:

– Se você tivesse me dado o que te pedi no bicho, eu te daria muito mais... – redarguiu ele com a voz contida. Na verdade, não sei até hoje se ele realmente pediu algum prêmio para qualquer entidade, embora não duvide. Acredito que tenha sido apenas atrevimento da parte dele.

Ela devolveu com uma ameaça:

– Se não me devolver o que me pertence em sete dias, voltarei e buscarei o que tem de mais precioso... – e deixou o corpo de minha mãe.

Até conseguirmos nos acalmar, a manhã estava quase completa. Dormi o sono mais perturbado de toda minha vida e acho que meus irmãos partilharam de meu sentimento. Perguntada o porquê do grito de pavor, Maria disse que um cão negro a seguiu durante todo o percurso da casa de nosso tio Júlio Torres até a nossa. Quando se virou para o animal, à frente do portão de casa, o bicho aumentou de tamanho assustadoramente, suas feições tomaram um aspecto demoníaco enquanto emanava um cheiro nauseabundo, e em questão de segundos, a criatura tinha por volta de dois metros de altura, erguida sobre ambos os pés. Depois disso, não se lembrava de mais nada...

Por muitos anos tive medo dessa criatura, e também por muitos anos ignorei o que a entidade pedia em devolução. O fato é que ela não voltou em sete dias, pelo menos, eu não tomei conhecimento disto.

Eu já usava calças quando meu pai começou a esclarecer aquela noite para nós.

Contava ele que, havia deparado em uma esquina, uma moeda de um Cruzeiro, um tanto suja de parafina de vela e logo a pôs no bolso, afinal, em terra de caolho, quem tem dois olhos é rei. Quando a entidade reclamou “aquilo que não lhe pertencia” ele logo entendeu do que se tratava. No dia seguinte, procurou a pratinha como um alucinado pelos bolsos das calças, temendo ela não ter ido pelo ralo durante a lavagem. Encontrando-a, pôs-se a caminho com velocidade, mesmo sob os protestos de minha mãe, que não entendia nada do que estava acontecendo. Ele estava apenas evitando que levassem o que ele tinha de mais precioso... Atirou a moeda na mesma esquina do encontro e foi embora sem remorso, todavia, as cenas daquela noite não lhe saíssem da mente jamais.

George dos Santos Pacheco

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