Eles, os porcos


Não sabemos muito bem como isso ocorreu. Bem, talvez isto não importe muito a esta altura, o que importa mesmo é como podemos nos libertar, se, de fato, isso pudermos.

Vivemos aparentemente como há décadas atrás. Os carros não voam, como esperavam as previsões cinematográficas; há mercados, religiões, casamentos e crises econômicas. Contudo, estamos sob constante vigilância. Estamos encarcerados em nossas próprias casas, em nossas próprias vidas, sem nenhuma chance provável de fuga. Os porcos estão no poder. É claro, o leitor irá estranhar “Como assim, porcos no poder?”, mas é isto mesmo, eu também estranhei quando percebi o primeiro. Andam como humanos, vestem ternos e gravatas, se socializam, dominam, pervertem. Ostentam seus grunhidos medonhos ante a incredulidade dos humanos.

Há algumas décadas, tentamos montar uma revolução. Pintamos nossos rostos, como os antigos indígenas – dizimados há bem mais tempo – faziam quando se preparavam para a guerra. Conseguimos livrar o mundo de alguns suínos, mas a maioria ainda estava lá, e além do mais, em pouco tempo eles se livraram das amarras que os prendiam, voltaram à liberdade, e não pudemos fazer nada. Sorriam para nós, erguendo seus cascos em forma de “V”, em um sinal de conquista de muitos, legitimado por seus ancestrais.

Essas revoluções arquitetadas à surdina nunca triunfaram, pois, alguns de nós frequentemente se aliam à eles, na expectativa de algum agrado, como facilidades para construir seus casebres, dentes postiços, ou até mesmo dinheiro em espécie. Por isso vivemos acuados: temos de enfrentar os porcos e os traidores. Repito: estamos sob constante vigilância.

Os malditos porcos nojentos parecem ter se organizado a fim de vingar-se dos maus tratos sofridos durante séculos, e, igualmente ao que ocorria com eles, mantém-nos encarcerados e comem de nossa carne. Choramos ao sentir a faca penetrar em nossa pele e cortar nossa veia, sangrando até o fim. Nas fazendas, puxamos arados sob um sol causticante, sem direito a descanso, e copulamos à força para aumentar a mão-de-obra humana. Algumas de nossas crianças são separadas de nosso convívio e são criadas em cubículos a fim de que sua carne não fique dura. Morrem na mais tenra idade, pois os porcos salivam só de pensar na vitela humana.

Para manter-nos cada vez mais controlados, pagamos impostos altíssimos. Alguns de nós fugiram, mas temo por eles, não estão em melhor situação do que nós. Vivem nas ruas, sujos e fétidos, comendo restos de alimentos dos suínos. Com isso, surge um efeito criado por esse sistema de controle: a criminalidade aumenta, e lutamos contra nós mesmos. É isso que eles querem. Permanecemos alienados, obedientes, sem poder de reação. Alguns deles já desenvolveram um poder psíquico e conseguem controlar nossas mentes.

Estamos cercados. Há humanos que não acreditam, mas estamos fadados à extinção. Eles se aproximam e já posso ver o fim. Entretanto, defenderei minha esposa e meus filhos até a morte. Pode ser que daqui a algum tempo, quando esse texto for lido, provocará risos. Talvez já tenhamos nos livrado do domínio suíno. Assim espero. Posso vê-los. Estão mais próximos, trazem farelos no focinho e fiapos de carne humana entre os dentes. Batem à porta. Eles, os porcos. 

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

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