Café Literário: O Reino Profano


Acordei no meio da noite e vi na beira da minha cama o enorme sapo marrom com dentes salientes. Sua boca parecia querer devorar-me e a gosma que escorria de sua nojenta pele encharcava o meu chão. Peguei o rosário que estava no criado-mudo ao lado da cama e enrolei-o por entre meus dedos. Apertei violentamente as contas grossas cor de café e pus-me a olhar para o crucifixo pendurado na velha parede.

-Hoje não desejo ir!

Senti a cama tremer por alguns segundos e depois parar. O enorme sapo marrom com dentes salientes olhava para mim com seus enormes olhos de anfíbio como se eu fosse um pequeno inseto indefeso. E era isso como eu realmente me sentia.

As lágrimas já se atreviam a derramar involuntariamente sobre minha face e a boca trêmula insistia em reproduzir alguns sons de desespero.

Vagarosamente o grande sapo deu um pulo em direção a mim, depois outro, e mais outro até ser impossível se aproximar mais. A cada centímetro que ele se deslocava sentia meu coração pulsar cada vez mais forte. Eu engolia um desespero incomum.

Um cheiro de enxofre invadiu meu quarto, vi as paredes sumirem por entre as grandes chamas que brotavam do chão, o teto derretia-se rapidamente e a partir daí pude ver um abismo. O sapo marrom virou-se em um pulo só e começou a descer a grande ladeira até sumir em uma enorme escuridão. Hesitei por alguns instantes, mas decidi fazer o mesmo caminho. A descida era muito íngreme e com muito cuidado pus-me a descer. O lugar era cercado por plantas trepadeiras mortas, de um marrom horrível.

Caminhei longos minutos até que ouvi gritos. Eram pessoas que vinham atrás de mim. Elas rolavam violentamente para dentro do abismo. Assustei-me com tal visão. Escorei-me em um dos muros das plantas trepadeiras e, meio ofegante, caí ao chão. Trepidei por alguns minutos. Nunca imaginaria que seria desse modo. Continuei minha descida e a cada vez mais que ia me aprofundando, a escuridão era maior.

Decidi descansar um pouco. Apoiei-me em algo que julguei ser uma pedra e com esforço sentei-me no chão árido. Não durou muito tempo meu descanso, logo após me sentar pude ver um enorme traço escuro que surgia do fundo do abismo se aproximando. Não podia ver o que era e aquilo se aproximava cada vez mais.

Foi só quando estava bem perto que eu pude ver que se tratava de um enorme tentáculo que puxava as pessoas da parte superior do abismo para uma enorme boca que se encontrava no fundo. Já devo ter dito que não me encontrava só naquele lugar e cada vez mais era maior o numero de pessoas que ali apareciam. Pessoas que estavam eufóricas, aos gritos, choravam e rangiam os dentes. Encontravam-se desesperadas.

No fundo havia uma enorme boca que engolia todos e os levava a uma espécie de deserto seco e quente. Caminhando um pouco mais podia se ver um enorme palácio cercado por um grande muro que o cercava circularmente. Nesse muro havia diversos portões cor de bronze com alguns dizeres estampados. Parei por alguns segundos e em um desses grandes portões pude ler: “E vi levantar-se do mar uma Besta que tinha sete cabeças e dez cornos, e sobre os seus cornos dez diademas, e sobre suas cabeças nomes de blasfêmia”.

Aproximei-me um pouco mais e um dos portões abriu-se sozinho fazendo um barulho insuportável e levantando nuvens de areia que por algum tempo deixou a visão coberta. Aos poucos, as nuvens de areia foram se abaixando e lentamente fui caminhando para dentro do portão.

O que os muros guardavam era uma série de corredores, como um labirinto, que dava acesso a uma grande sala oval. Não havia nada na sala, só outra porta na outra extremidade do grande salão. Não era um lugar muito agradável.

-Está com medo padre?

Era uma voz sarcástica que adentrava por meus ouvidos. Quase que em um grito disse:

-Quem é?

-Não me reconhece mais?

-Desejo voltar!

-Não deseje nada. Aqui os desejos são mera futilidade.

-Porque fazem isso comigo?

-Está perdendo a fé padre?

Permaneci em silêncio.

-O que devo fazer?

Um homem branco, bem apessoado, com boa aparência havia aparecido em minha frente:

-Abra aquela porta padre. Abra e veja meu grande reino! – Disse apontando para a porta na outra extremidade do salão. – Se confia tanto em sua fé, vá e abra! Não há nada a temer!

Vagarosamente e desesperadamente, comecei a caminhar em direção a porta. A cada passo que me aproximava da porta eu podia ouvir gritos escandalosos. Aquilo me amedrontava. Podia sentir também um calor muito grande vindo em minha direção, o que me fez suar bastante. A porta estava cada vez mais perto. Quando cheguei ao destino, pude ler outros dizeres: “Descarregue aqui toda a vossa esperança”. A porta se abriu. Quando vi o que havia ali caí de joelhos. Era o inferno. Estava lotado de pessoas. Algumas eram decapitadas, outras lutavam contra eles próprios, vermes gigantes sugavam todo o sangue pecador, demônios chifrudos socavam e gargalhavam de toda a gente que ali estava. Comecei a chorar compulsivamente. Quando levantei a cabeça novamente pude ver que todos daquele horrível lugar me olhavam com seus olhos de dor. Buscavam em mim uma esperança. A esperança que haviam deixado ao entrarem ali. Trepidei novamente.

-Entre padre! Eles querem você! Eles suplicam por você!

-Não!

-Entre! Entre depressa!

-Não! Não!

-Ainda duvida de sua fé padre? Onde está o seu Deus?

-A cruz sagrada seja a minha luz, não seja o dragão meu guia. Retira-te satanás! Nunca me aconselhe as coisas vãs! É mal tudo o que me ofereces! Bebe tu mesmo dos teus venenos!

-Rezando padre? – Disse ele caçoando.

-O demônio é mentiroso e invejoso! Só Deus tem misericórdia dos meus pecados!

-Onde está seu Deus agora padre? – Disse gritando e gozando de minhas palavras - Ele está muito ocupado para te ajudar?

Foi quando uma forte luz apareceu, e de lá, pude ver outro homem, de vestes brancas puras, iluminadas.

-Deixe-o em paz Lúcifer!

-Ele agora é meu Miguel!

-A vida dele está inacabada!

-Sempre desagradável Miguel...

-Derrotarei-o novamente se for preciso!

-Não será preciso. A alma deste homem já perten ce ao meu reino.

E nisso pude ver o homem bem apessoado desaparecer no fogo do inferno.

Miguel Arcanjo, de branco voltou-se para mim e disse:

-Volte! Sua hora ainda não é esta!

De repente, as cores começaram a se embaraçar, como se tudo ficasse embaçado. A porta foi fechada, senti algo me puxar para trás. Refiz todo o caminho até estar de volta em meu quarto. Pude ver o sapo marrom com dentes salientes novamente. A cama novamente começou a tremer e depois de alguns segundos parou, como da primeira vez. O grande sapo marrom com dentes saliente havia desaparecido subitamente. De onde ele havia estado pude ver um pedaço de papel. Nele havia escrito “Céu”.

Fui deitar contente. Pus-me a imaginar como seria o céu.

Bem, não preciso imaginar muito, amanhã o grande sapo marrom me visitará e finalmente poderei conhecer quão bonito é por lá.

Vitor Bolina
 
Vitor Bolina é um mineiro de 19 anos graduando em psicologia. Começou a escrever quase que por brincadeira e depois do primeiro conto nunca mais parou. Apaixonado pela literatura, aventura-se também pelos poemas, publicando alguns dos seus trabalhos no blog http://pequenoego.blogspot.com/. Contatos com o autor: vitorbolina@hotmail.com

Pacheco também é cultura!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.