Café Literário: Anno Domini




Londres, 02 de fevereiro de 1502, Ano do Senhor
     

Meu nome é Padre Ignácio de Montesso e começo este diário impelido pelo que só posso julgar ser a mão divina. Assim como todos os servos da Santa Fé, fui doutrinado na arte da escrita sem, no entanto, nutrir qualquer apreço especial por ela. Ao menos até o dia de hoje.

    Como que tocado por pentecostes, sinto a obrigação de iniciar este humilde relato de meus dias e, guiado pela vocação, o faço em idioma comum e linguagem simplória. Estranho essa necessidade, mas a única resposta possível ao divino chamado é: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa vontade”. E como são sábios e misteriosos os desígnios do Pai!

    Justamente hoje, o dia em que fui tocado pelo ânimo celeste, dois incomuns fatos romperam o ordeiro mosaico de minha rotina: o recebimento de uma carta de meu velho mentor e uma mensagem da Santa Sé, nomeando-me pároco de um pequeno vilarejo ao norte da capital. As duas missivas vieram pelas mãos do mesmo mensageiro que, cheirando a suor e pêlo de cavalo, entregou-as e desapareceu em galope desvairado sem, ao menos, aceitar pouso ou refeição.

    À primeira vista, pode parecer que não há nada de extraordinário no ocorrido, mas os conteúdos das mensagens estavam tão intimamente ligados, que apenas a solidez da minha fé me impede de procurar qualquer razão mística para isso. Porém, me apresso. Preciso organizar o pensamento e retomar a ordem cronológica dos eventos. Guia-me, Senhor.
    Sorri ao ler o nome e reconhecer o selo de Monsenhor Fernandez na primeira carta. O velho frade espanhol havia sido, para mim, como uma espécie de mestre e protetor, sempre ensinando a reconhecer a beleza da criação e a confiar na fé, mesmo diante dos mais terríveis obstáculos. Porém, como o dever para com a Santa Sé antecede os laços de amizade, pus a mensagem de Monsenhor de lado e abri primeiro a carta do bispo. As palavras ali escritas eram poucas e diretas, mas tamanho impacto me causaram.

    Em parcas linhas sua eminência me informava que eu deveria seguir viagem imediatamente para o vilarejo de Wistonbury e assumir o lugar do antigo pároco, Monsenhor Fernandez Távora, que havia falecido há poucos dias. Por alguns instantes, o ar me escapou dos pulmões. Como poderia meu velho mestre estar morto? Sofria ele de alguma doença? Que mal súbito lhe ceifara a vida antes mesmo que pudesse me escre...

    Meus olhos recaíram sobre a segunda carta, ainda fechada, guardiã das últimas palavras de Monsenhor. Confesso que ainda não tenho coragem de abri-la. O farei amanhã, agora preciso dormir. Dias tempestuosos se avizinham e devo preparar-me para a viagem. 
 
                
          ******** ---- *********

Estrada para Wistonbury, 05 de fevereiro de 1502, Ano do Senhor
    Sinto que negligenciei meus deveres ao deixar de escrever nestes últimos dias, mas creio que o Senhor há de me perdoar. Os preparativos eram tantos, e tão poucas eram as horas das quais podíamos dispor, que todo o meu tempo desperto foi dedicado exclusivamente à viagem. Somos três e estamos há um dia e meio na estrada.

    Viajam comigo padre Brian Ville, um jovem clérigo recém ordenado, e “Sir” Thomas Ergon, na falta de melhores termos, um guarda-costas. Thomas, ou Tom como prefere, é o ser mais odioso em que já pousei os olhos. Seus modos são brutos, sua higiene pessoal é nula e seu vocabulário parece ser composto apenas de pragas e obscenidades, mas as estradas do Rei Enrique VII não são famosas por sua segurança e sua presença é um mal necessário.

    Agora mesmo ele me encara enquanto escrevo. Seus olhos verdes injetados de curiosidade e raiva não me deixam um só instante. Quiçá, como muitos cavaleiros, ele seja iletrado e se ressinta daqueles a quem as letras não são um mistério insolúvel. Ainda me encara. Talvez não tenha notado que já o percebi, talvez apenas não se importe. Sei que devo ser paciente e piedoso com todas as criaturas de deus. Senhor, ajuda-me com Sir Thomas.

    Ainda não encontrei coragem para ler as últimas vontades de Monsenhor Fernandez. Sei que não devo ser dado a superstições, mas sinto que a missiva de meu mestre contém sua derradeira lição e, enquanto esta ainda não for aprendida, ele não me deixará sozinho.

          ******** ---- ********* 

Estrada para Wistonbury, 6 de fevereiro de 1502, Ano do Senhor   
   Ontem à noite, mal guardei a pena e assoprei a vela, um evento digno de nota ocorreu em nosso pequeno acampamento. De início, uma estranha cerração se abateu sobre nós, como se nos forrassem, de uma única vez, com um cobertor de brumas, e em seguida, vieram os uivos.

    Não me prenderei aos terríveis detalhes do ocorrido, mas perdemos os cavalos e uma das bestas de carga, esta última sacrificada por Thomas para saciar o apetite voraz das feras em nosso encalço. Em nome de nosso salvador, como é difícil conviver com este homem! Ainda banhado pelo sangue da mula, praticamente nos açoitou para que corrêssemos mais depressa. Tentei argumentar que a vida monástica não nos havia preparado para desafios físicos, mas sua retórica, composta basicamente de ameaças e meneios com a espada, foi mais eficaz.

    A noite caiu há apenas poucos minutos e todos estamos temendo a vinda da cerração, do breu branco que prenuncia os uivos e a morte. Talvez os lobos tenham ficado para trás, talvez nós estejamos a... Ouço algo. Brian foi verif...

    (TRECHO PERDIDO)

    Vilarejo de Wistonbury, 10 de fevereiro de 1502, Ano do Senhor

    Louvado seja o Pai! Apesar de todos os obstáculos, alcançamos nosso destino. Irmão Brian permanece desacordado e sua ferida parece ter infeccionado. Minha própria febre ainda queima forte e cruel. O maldito Thomas é único de nós que ainda consegue se manter de pé. Às vezes penso que sua crueldade lhe dá alguma espécie de força sobre-humana.
Estou alojado na casa paroquial. A vila é pequena e de aspecto sombrio, as nuvens de fim de outono lhe emprestam um tom tétrico e o rugido do oceano próximo mais assusta que acalenta. Porém, o que realmente me roubou a atenção foi o velho castelo.

    O local parece estar abandonado há décadas, mas ainda guarda um pouco de sua velha elegância. Altas torres e janelas, que lembram olhos vazios e fixos, saúdam todos aqueles que entram na vila e um poço fétido e semi-destruído afugenta qualquer alma mais curiosa com seus miasmas imundos. Lembro que perguntei o nome daquela peculiar construção, mas houve uma estranha recusa dos gentis em me responder. No entanto, alguém deve ter sussurrado algo, pois o nome “Despensa do Carniçal” me assombra sempre que me encontro sob o olhar vítreo daquelas janelas...

(TRECHO PERDIDO)

Vilarejo de Wistonbury, 14 de fevereiro de 1502, Ano do Senhor

    A febre finalmente deixou meu corpo e aos poucos estou me adaptando ao ritmo do vilarejo. Ainda não celebrei minha primeira missa, afinal a capela ainda se encontra destruída pelo incêndio, e tento não pensar que assim se foi meu velho professor, consumido pelas chamas. De toda maneira, a pequena população de Wistonbury tem muito a agradecer.

    Diferente das demais vilas e aldeias próximas, esta parece prosperar e não sofrer com ataques de bandoleiros ou bestas selvagens. A população é bastante jovem e cordial e ainda não ouvi queixas sobre as criações ou a colheita. Apenas um pequeno grupo de anciões parece viver em constante pesar, com seus rostos taciturnos e passo arrastado, como se guardassem um terrível segredo. Tentei aproximar-me, mas minha juventude deve tê-los espantado, pois andam ainda mais reclusos esses dias.

    Tenho também o infeliz dever de registrar que o estado de saúde de irmão Brian é cada vez mais precário e que “Sir” Thomas ainda nos brinda com sua dispensável companhia.

   ******** ---- *********

Vilarejo de Wistonbury, 15 de fevereiro, Ano do Senhor

    Meu Senhor, dê-me paciência para suportar a ignorância dos tolos! Já convivi com aldeões e sei que algumas vezes sua natureza supersticiosa os leva à prática de comportamentos estranhos, mas o que me foi sugerido aqui beira a heresia! Pai, ajuda-me a acalmar meu ânimo para que possa relatar imparcialmente os tristes fatos deste dia negro.

    Hoje faleceu o irmão Brian. Apesar do esforço de todos para salvá-lo, seu corpo mortal não resistiu aos ferimentos e sucumbiu ante o abraço cálido da morte. Que o Senhor o tenha em sua companhia. Porém, esse triste fato foi o estopim para a epidemia de insensatez que tomou a vila.

    Os mais velhos foram os primeiros a me comunicar sobre a intenção de realizar seu herético ritual. Custei a acreditar que falavam sério quando me sugeriram que, segundo os costumes locais, não deveria velar o corpo de meu confrade, ou mesmo realizar um cerimônia fúnebre adequada, mas sim atirá-lo como um bicho no poço do profano castelo!

    De repente, entendi de onde vinha o fedor que exalava daquela boca pútrida e blasfema, aquele buraco negro deveria estar repleto com os cadáveres dos mortos do vilarejo, cada um em diferente estado de decomposição! Meu deus! Estaria Monsenhor Fernandez também legado àquela conspurca sepultura?! Queira o Senhor que não tenha sido esse seu destino.

    Obviamente, afastei qualquer possibilidade de tamanha insanidade ocorrer e os exortei severamente a abandonar tão blasfemo costume! Ainda tive de lidar com a ignorância costumaz de Thomas que chegou a sugerir que seguíssemos a lei local. Obriguei-o a me ajudar a levar o corpo inerte de Brian à casa paroquial, onde agora estamos. Esta noite será de vigília e orações, portanto devo encerrar brevemente este relato... Alguém bate à porta, deixarei Thomas atender.

 
   ******** ---- *********

Vilarejo de Wistonbury, 16 de fevereiro de 1502, Ano do Senhor

    Louvado seja Deus por homens como Thomas! Se vivo hoje para descrever os fatos, que até agora me recuso a acreditar, é por exclusiva responsabilidade deste servo do Senhor. Escrevo apenas para manter a sanidade e ajudar minha mente e espírito a compreenderem a grandiosidade e perigo da missão que me aguarda.

    Ao finalizar os relatos do dia de ontem, fui verificar o porquê da demora de Thomas em me indicar quem nos visitava em tão inoportuna hora e deparei-me com a mais bizarra das visões. Diante de mim, o cavaleiro batia-se em combate contra duas criaturas saídas dos mais terríveis pesadelos da espécie humana.

    A raça das trevas tinha a pele da cor do azeviche, grossa e coberta de chagas, seu crânio alongado possuía, a guisa de face, uma bocarra repleta das mais pontiagudas presas que a noite era capaz de produzir e um focinho animalesco sempre a fungar, seus braços finos, de músculos rijos e definidos, terminavam em garras alongadas, forjadas para rasgar a carne e perfurar os ossos. Porém, sua maior arma era o fedor nauseabundo que exalavam.

    Petrificado, assisti a Thomas, armado de archote e espada, empreender sua dança mortal com as criaturas. Aço e fogo contra garras e presas, e por nosso senhor Jesus Cristo, ele estava ganhando! O guerreiro abanava o archote em longos semicírculos enquanto saltava e estocava a carne podre dos demônios com sua espada longa, enquanto isso, as bestas recuavam e silvavam, ameaçando com suas garras e mostrando os dentes serrilhados. Apenas quando eles cruzaram os umbrais, notei o porquê daquele estranho comportamento.

    Em seu jogo mortal, as criaturas atraiam Thomas para fora da casa paroquial! Corri em seu auxílio, mas meu grito de alerta morreu em minha garganta quando senti um ardor lancinante descer da nuca até o meio das costas. Um terceiro demônio me atingira de raspão, enquanto o quarto saltava pela janela com um fardo enrolado em mortalha branca. A raça das trevas havia vindo buscar seu tributo, o corpo do irmão Brian.

     Virei-me para encarar a face de meu algoz. Bem sabia que não era capaz de derrotar em combate tamanha monstruosidade, mas algo ainda me impelia, algum fio de esperança não permitia que eu me abandonasse ao puro terror que aquela cena evocava. Peso em relatar que vi astúcia naqueles olhos amarelos, uma inteligência maliciosa que se deleitava com meu medo. Um urro inumano, porém, tirou o prazer daquele blasfemo sorriso. Ao que parece, o cavaleiro estava vendendo caro demais sua própria vida!

    Com um safanão, a criatura atirou-me de lado e partiu em auxílio de suas irmãs demoníacas, mas o verdadeiro monstro se chamava Thomas e ao final de seu mórbido ofício, três cadáveres profanos jaziam inertes aos seus pés. Não conseguimos impedir que levassem o corpo do irmão Brian e sofro ao pensar que terríveis abominações encontram repasto em sua carne, mas ao menos escapamos com vida.

    Tarde demais, abri a carta de meu mentor. Poucas eram suas palavras, mas que falta me fizeram! Transcrevo-as agora: “A noite é sua inimiga. Os seus filhos se alimentam da carne dos mortos enquanto o seu Mestre bebe do sangue dos vivos. Ele repousa no velho casarão e apenas a luz do sol, o fogo e o aço santificado são capazes de ferí-lo. Eu falhei, Ignácio, mas você há de triunfar”. E assim o farei. Ao raiar do dia, meu Senhor há de guiar minha mão e meu espírito até a sagrada vitória. Amém.

(DIVERSOS TRECHOS PERDIDOS)

Londres, 2 de fevereiro de 2011, Ano do Senhor

    Encontrei hoje meu velho diário e relembrei com saudades daqueles dias ingênuos. A quem interessar possa, realmente venci o duelo contra o demônio do casarão, mas não foi livre de preço. Tive vários séculos para especular e hoje acredito que foi seu sangue contaminado que me legou sua maldição, mas depois de tanto tempo já não me importo mais. Irei encerrar por essa noite, pois o dia não tardará a amanhecer e Thomas deve estar retornando com minha comida. Tenham todos uma boa noite.

Elsen Pontual

Elsen Pontual nasceu no dia 12 de abril de 1982 em Recife, Pernambuco. Servidor público da Justiça do Trabalho, por profissão, e contador de estórias, por vocação, recentemente aceitou a existência do mundo virtual e agora tenta levar suas estórias para esse novo e estranho universo, através do seu blog: www.portaldoscontos.wordpress.com.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.