Quem não deve, não teme


Sempre fui um excelente cidadão. Respeitei os mais velhos, cedi-lhes meu lugar, recusei troco errado, paguei meus impostos e contas em dia, além de não jogar lixo nas ruas. Esse lixo, aliás, sempre foi selecionado em minha casa, para ter uma destinação correta. Uso sempre o cinto de segurança e obrigo quem ande comigo a usá-lo; meus filhos andam na cadeirinha infantil. Também não bebo quando dirijo. Já sei, já sei, vocês acham que isso é demagogia, mas não é. Como podem observar, sou bem chato com regras. Se existem é para serem seguidas.

Ontem o expediente no trabalho terminou bem tarde, e isso em uma sexta feira fria e chuvosa, é um motivo a mais para se chegar atrasado em casa. Peguei um baita engarrafamento na ponte Rio–Niterói, o ônibus para Friburgo estava marcado para as 19 horas e 10 minutos, mas saiu apenas trinta minutos mais tarde. Conclusão: Cheguei em minha cidade às 22 horas e 30 minutos. Peguei meu carro, pus meu cinto e me dirigi a meu bairro. Para isso, passo pelo bairro dos meus pais, o que encurta o caminho em uns cinco ou dez minutos. À distância pude observar diversas viaturas policiais paradas com as luzes vermelhas giroscópicas acesas, na entrada do mesmo.

Imaginei logo que se tratasse de um acidente.

Acendi a luz do salão e diminuí a marcha até me aproximar das viaturas. Fiz uma aceno de cabeça para cumprimentar o policial e ele mandou que eu encostasse. Obedeci. Quem não deve, não teme.

Baixei o vidro e ele me pediu muito educadamente minha habilitação e os documentos do carro e eu atendi prontamente, não sem antes rasgar aquele plástico para guardas documentos na carteira. Sempre tive problemas com eles, minhas carteiras não duram mais que um ano. O soldado tomou a palavra:

– Poxa parceiro, deixou vencer? – perguntou ele.

– O IPVA está pago... – respondi.

– Não amigo, não é o documento do carro. É sua habilitação...

– Como é? Está vencida? (Devem ter pensado: Essa desculpa eu já conheço...)

– Não sabia que estava vencida?

– Não...

E não sabia mesmo. Quando ele disse que a habilitação tinha vencido foi que meus pensamentos se concatenaram. Lembro-me que a CNH vencia em 2011. Mas estava tão longe... E ninguém – pelo menos que eu conheça - fica verificando a carteira a todo momento. Tudo bem, isso não é desculpa.

Enquanto eles me autuavam, vários outros motoristas foram parados, alguns liberados, outros autuados também. Retiveram minha habilitação e só liberaram meu carro quando meu pai apareceu para levá-lo para mim, não sem antes realizar o teste do bafômetro, assim como eu. Quando fui solicitado atendi prontamente, afinal quem não deve, não teme, e meu teste deu zero. Ora, beber eu tinha certeza que não tinha bebido, assim como que tinha certeza que minha habilitação estava no prazo.

Um conhecido se negou a princípio a fazer o teste, mas sob a ameaça de ser multado, aceitou fazê-lo. Soprou devagar, tão devagar que o aparelho não reconheceu o sopro. Alegava ter problemas no pulmão (Devem ter pensado: Essa desculpa eu já conheço...). Foi solicitado a fazer o mesmo procedimento outras vezes, até que por fim o teste foi realizado e acusou uma quantidade considerável de álcool. O cara foi preso por dirigir embriagado.

Tudo bem, eu não fui preso. Tive a carteira apreendida, pontuação na CNH referente a uma infração gravíssima e agora terei que fazer um curso de atualização de aproximadamente cem reais, além de pagar o DUDA para isso, e a terrível multa, de quase duzentos reais. Saiu caro. Até porque vou ter de ficar sem dirigir por um bom tempo e isso vai me atrapalhar um bocado. Quem não deve, não teme, contudo, o seguro morreu de velho. Vou verificar constantemente minha nova habilitação. Gato escaldado tem medo de água fria.

P.S.: Aposto que algumas pessoas que leram este artigo correram para verificar suas habilitações também...

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

Pacheco também é cultura! (E utilidade pública também!)

Um comentário:

  1. Prezados Escritores e Leitores.

    Agora existe um espaço novo, onde escritores podem postar a sinopse de suas obras para um as editoras se interessarem em publicar a obra.
    Podem publicar seus livros de forma segura com uma participação atrativa em percentual de vendas na EditoraClick, na forma de ebook, que revende ebooks através de site, sistema android para celulares, pads, tablets, computadores e note.
    Artistas podem publicar obras.
    Conteúdos aceitos: livros, video aulas, audio books, ebooks, apostilas de concurso, cursos, livros literários, livros científicos entre outros.
    Venha conhecer esse novo universo.
    http://www.scrittodigital.com.br

    ResponderExcluir

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.