O que é escrever bem?

O que pode se entender por escrever bem? Usar a língua portuguesa da forma mais erudita, sem gírias e “erros de português”? É claro e evidente que aprendemos a escrever de acordo com um sistema linguístico preexistente, o qual, todavia, não é de conhecimento de todos, não é homogêneo. Inclusive, em um país de proporções continentais como o nosso, o próprio sistema difere em função de diversos fatores, entre eles, o regional.


Podemos nos perguntar agora: O português falado corretamente é o do Rio de Janeiro, ou o do Maranhão? O de Portugal, o brasileiro, ou o de Moçambique? Sim, porque são inúmeros os lugares em que se fala português, mas a Língua Portuguesa é uma só, não é mesmo? Língua esta, originada no Latim vulgar, aquele falado pelo povo, repleto de recursos de economicidade e as tão conhecidas gírias, assim como na nossa realidade é falado pelo povo o nosso “português brasileiro”. É importante que isso seja frisado, para que se entenda que o idioma é dinâmico, é um sistema em constante transformação. O que hoje é considerado um erro, inculto, pode fazer parte da norma culta em um futuro não tão distante.

Vejamos o caso da palavra presidenta.

Na Língua Portuguesa, assim como em outras línguas, existe o chamado particípio presente, ou particípio ativo que é uma derivação da forma verbal no tempo presente que pode ser empregado como verbo, adjetivo ou substantivo. É usado com as terminações -ante, -ente e -inte (pipocante, presidente, constituinte).

O particípio presente do verbo ser é -ente. Aquele que tem entidade, que tem a capacidade de exercer a ação de um verbo. Portanto, aquele que preside é o Presidente, independente de gênero. Quem comanda é o Comandante, quem adolesce, é adolescente e etc. Então, segundo a regra, a palavra presidenta está errada, mas de acordo com os mais célebres dicionaristas de nossa língua, as duas grafias já são consideradas corretas.

Eis, portanto, um legítimo caso da transformação de nossa língua. Um outro exemplo, mais incorporado ainda ao dia-a-dia dos falantes do português, é o da palavra trabalho. Ainda hoje nos dicionários, porém em desuso, está a palavra laborar, com o significado de lidar, esforçar-se. Pois o povo da época utilizava-se de uma gíria, tripalium, que era na verdade um instrumento de tortura, e daí surgiu a associação do cansaço do trabalho com a tortura. Vou para o tripalium. Vou para o trabalho. Incrível, mas é a mais pura transformação de nossa língua.

Neste sentido, podemos considerar que os chamados erros são relativos, assim como a idéia de se escrever bem. Já que a língua está em transformação, o erro pode não ser um erro, apenas uma variação da língua de acordo com a região, questões socioeconômicas entre outros.

É importante também ressaltar que escrever bem está associado diretamente com o contexto em que está inserido e as relações de poder a ele concernentes, exempli gratia, uma entrevista de trabalho, uma petição judicial; sendo realmente relevante que a mensagem que está sendo transmitida chegue ao seu destinatário, e que a ele seja possível compreendê-la.

A Língua Portuguesa, registrada desde o séc. XII, entrou em contato com diversas culturas e línguas que a “contaminaram” de alguma maneira, e por isso foi e está sendo transformada, por mim, por você, por todos.



Escrever bem é, portanto, se fazer entender em meio a um contexto, que pode variar, dependendo das relações de poder atribuídas.





Referências: VALLE, Camila do; Christiano Marques; Marcio Mori. Português Instrumental. Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2010.

Particípio presente. Wikipédia. Disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Particípio_presente
 
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