Divulgado o primeiro capítulo de O fantasma do Mare Dei!

João Camargo sentou-se à sua cama e ficou olhando pela janela de seu pequeno apartamento. O tempo parecia estar bom, o sol ainda estava nascendo e corria uma leve brisa. Já era início de outono. Seria um ótimo dia para viajar ou para recomeçar. Era disso que ele precisava, de um recomeço.

Estava imóvel pensando em tudo que já tinha feito na vida, e nada daquilo o agradara. Já havia sido de tudo, porém não tinha conseguido tomar um rumo. Era de origem humilde e a situação em que se encontrava não era das melhores, acreditava não ter dado orgulho a seus pais.Agora se levanta, se espreguiça e vai pegando o resto de suas bagagens, já havia algumas no navio. Aquele quarto mofado que conseguira depois de encontrar o Capitão Américo já não iria lhe servir mais, tinha um plano e ele precisava dar certo.

No momento em que ia fechar a porta vira-se para o interior do apartamento e dá uma última olhada em tudo.Não voltará jamais.O barulho da porta incomoda al-guns vizinhos:

– Olha a bagunça aí ! São seis horas ainda, quero dormir! – gritavam. Eram quartos apertados, um do lado do outro, com apenas uma pequena cozinha e um ba-nheiro menor ainda.

O rangido da escada de madeira acorda o Sr. Chicão, ou Sr. José Francisco Tel-les, um senhor de quase uns setenta anos que era uma espécie de porteiro, na verdade morava ali de favor, depois que mulher e filhos foram assassinados. Ele mesmo na ocasião levou alguns tiros, mas só ele sobreviveu, não sabia se era sorte ou castigo. Isso já fazia uns 20 anos e ainda assim alguns moradores comentavam. Alguns diziam que havia sido vingança – apesar de não saberem nem o porquê -, outros diziam que foi um assalto. Ele, nada falava do assunto. Ficava na maioria das vezes na entrada estreita do velho prédio, meio calado, sentado em uma cadeira de madeira boa, escre-vendo coisas em papéis, que só ele entendia. Na verdade pareciam mais com rabiscos. Diziam ser cartas para a mulher.

– Bom dia , Sr.Chicão! – cumprimentou João.

– Bom dia Sr. João Camargo ! – respondeu o velho – Está um belo dia hoje, não acha ?

– É, parece que sim. Olhe, aqui estão as chaves do meu apartamento, quando o proprietário vier, diga que já retirei tudo que era meu e que ele já o pode alugar.

– Como assim, o senhor está indo embora ? – perguntou o velho que a essa al-tura já havia levantado da sua cadeirinha de estimação.

– Estou indo sim, Sr. Chicão, mas prometo lhe mandar mais um daqueles pos-tais bem legais, está bem? – confortou João.

– É uma pena, as melhores pessoas vão embora rápido. Sempre é assim . – dis-se o velho com um olhar desolado.

– Adeus Sr. Chicão, tome essas roupas, acho que elas servirão no senhor. Po-nha logo este casaco, de manhãzinha faz um pouco de frio. – disse João, entregando uma bolsa de roupas usadas e colocando um casaco sobre os ombros do velho. Era assim que ele sobrevivia, de doações. Um trocado aqui, outro acolá e ele ia vivendo.

– Oh ! Muito obrigado meu filho, é muita gentileza sua. Vá com Deus, que Ele ilumine seus caminhos – agradeceu o velho, dando um abraço forte em João. Seus olhos estavam marejados. João sentiu pena dele, saiu do prédio e antes de seguir vol-tou-se para trás e acenou com a mão. Sr. Chicão respondeu o cumprimento e ficou lá olhando para ele com aqueles mesmos olhos tristes de sempre.

– Ele vai precisar mais de Deus do que eu. – pensou João.

Seguia pela Rua da Quitanda - onde ficava o prédio - com sua mala nas mãos. As ruas estavam cheias de folhas que já caíam das árvores que ficavam na Visconde de Inhaúma. Agora entra pela última vez na lanchonete em que sempre tomava seu café quando não estava no navio.

– Bom dia João! O que vai querer hoje ? – pergunta Silas, o atendente da lan-chonete.

– Bom dia Silas. Me dá uma média e dois pães na chapa. – pede João.

A lanchonete estava lotada, as pessoas se esbarravam a todo o momento, o som das vozes fazendo pedidos se misturava com o barulho da manteiga derretendo na chapa quente e o liquidificador. João olha o relógio, são seis e trinta. Tomaria aquele café rápido e seguiria logo em seguida para o navio, ele ia zarpar às dez horas, mas nove e meia todos os funcionários já teriam que estar a bordo e ele ainda tinha muito que fazer.

– Seu pedido João. – avisa Silas, entregando uma bandejinha a João.

Enquanto mexia seu café, João pensava em o que ia fazer dali para frente. Tra-balharia com o quê ? O que ele precisaria fazer para sobreviver ? O sonho de sua mãe era que ele fosse advogado. Doutor Advogado, dizia. Mas João já tinha trinta anos e só era marinheiro de um navio de passageiros. Um dos últimos de sua época, já que agora as pessoas preferiam viajar de avião, achavam mais confortável, mais rápido. Viajar de navio era mais charmoso, acreditava João. Mas ele queria mais, queria comprar casa, carro, constituir família. Quem iria querer casar com um marinheiro, que morava em um quarto mofado na Rua da Quitanda ?

– Obrigado Silas, bom serviço para você. – diz João pagando a conta.

Caminhava em direção a Praça Mauá, onde estava o navio, a sombra das árvo-res lhe era agradável. Havia alguns mendigos dormindo nas calçadas, famílias inteiras até. Como eles tinham se multiplicado nos últimos tempos !

– Me ajude por favor ! Um trocadinho para eu tomar meu café da manhã ! – implorava um, se apoiando na parede e estendendo a mão. Tinha a perna cheia de fe-ridas, enroladas em um pano tão sujo que era melhor que elas estivessem descobertas.

João o olhou com nojo, e desviou do mendigo. Ele deve estar querendo dinhei-ro para tomar cachaça – pensava. A certa distância olhou para trás, para se certificar que o mendigo não o estava seguindo. Para sua surpresa, o mendigo tinha desapareci-do. Achava estranho, mas foi até melhor. Para onde ele teria ido ? – se perguntava. Bom, isso era problema dele.

Atravessou a rua em direção à estação de passageiros do porto do Rio de Janei-ro, e ainda tinha gente saindo das boates da Praça Mauá, em sua maioria bêbados, qua-se não se agüentando em pé, cantarolando abraçados uns aos outros.

Antes de passar pelo portão da estação, já dava para ver o Mare Dei inscrito na bochecha direita do seu navio. Era o lado considerado de honra dos navios, na anti-guidade alguns tinham uma espécie de leme chamado “staurus” que depois se trans-formou em “steor”, dando nome ao lado do navio “steorbord” – em inglês - que em português virou estibordo, e mais tarde boreste, para não confundir com bombordo, o lado esquerdo do navio. O navio era realmente lindo, todo branco, já não tinha ne-nhuma lágrima no costado. Estava impecável.

João apresenta sua identidade no pórtico da estação e vai seguindo pelo cais. O cheiro da maresia impregnava suas narinas. Subiu a prancha e se apresenta ao supervi-sor de serviço do portaló do navio.

– Bom dia Sr. Waldir ! Tudo pronto para a viagem ?

– Agora está quase ! – responde Sr. Waldir, lançando o nome de João no livro de controle dos funcionários. São que horas mesmo, João ?

– São cinco para as sete.

– João Camargo, Regresso as seis e cinqüenta e cinco. – registra Waldir.

Nas paredes do corredor em que João seguia, havia algumas setas indicando a direção de vários lugares: salão de festas, cabines 1ª classe, cabines 2ª classe. Mais a frente havia outras: cozinha, cabines dos funcionários. João desce dois lances de esca-da e segue por outro corredor, o das cabines dos funcionários, saca um molho de cha-ves do bolso e abre sua cabine.

Não estava tão bagunçado quanto imaginava ter deixado, algumas roupas em cima da cama, umas malas do lado dela. Até que para uma cabine de funcionário ele era ótimo. Logo depois da porta, à esquerda havia uma cômoda de madeira, de frente para a porta, estava a cama, um pouco baixa, com a cabeceira para o lado direito. Nos fundos do quarto ficava um pequeno banheiro, sem muito luxo, a porta dele ficava perto do também pequeno guarda-roupa. A iluminação da cabine é que não era muito boa, um pouco fraca. – A cabine da primeira classe deve ser ótima – ficava pensando.

Entrou e trancou a porta, sentou à cama e pôs uma de suas malas no colo. Des-trancou o cadeado e abriu, ficou uns instantes olhando dentro da mala e depois fe-chou, tornou a trancá-la e a pôs embaixo da cama. Vestiu-se com o seu uniforme de serviço comum, ajeitou seu caxangá meio de lado – achava que assim ficava charmoso – e seguiu para o convés.

Já tinham alguns passageiros embarcando, as coisas começavam a ficar mais a-gitadas. Quando chegou se deparou com o sol que brilhava alaranjado por cima de um morro deixando o convés ofuscado e de repente sofreu uma trombada.

– Hei ! – disse se virando, pronto para reclamar mais quando viu em quem ti-nha batido.

– Meu Deus ! - exclamou. Perdoe-me por favor ! – disse. Era uma moça linda, com os cabelos no meio das costas encaracolados tão loiros que mais pareciam bran-cos. Seus olhos eram um azul-claro, meio acinzentado. Parecia um anjo. Devia ter uns 23 anos, no máximo. Abaixaram juntos para pegar sua bolsa, que caíra na pancada.

– Não foi nada, não machucou ! – disse com o sorriso um pouco triste.

Mal conseguia se desculpar de tão encantado com a moça. Parecia uma criança quando ganha um presente e só fica olhando com a boca aberta, sem saber o que fa-zer. Quando ia se desculpar outra vez um grito o interrompeu.

– Seu idiota ! Não olha por onde anda ? São realmente uns funcionários in-competentes que tem esse navio ! Eu falei para a gente ir de avião !

– Calma Marcius, ele não fez por querer ...

– Ora, Helena estou calmo ! – disse Marcius

– Me desculpe, eu não queria ...

– Cale a boca rapaz ! Não me interrompa ! Estou falando com minha esposa ! – gritou mais uma vez Marcius. – Me dê logo essa bolsa, anda !

– Ele já se desculpou querido . – tentou acalmar Helena ao mesmo tempo em que era puxada pelo braço.

– Eu quero que ele pegue a bolsa, não você. É o mínimo que ele tem que fazer.

João juntou as coisas que haviam caído da bolsa, colocou-as dentro e entregou-a, meio sem jeito.

– Dê uma olhada nela Helena, veja se ele não pegou alguma coisa. – disse Mar-cius, tomando a bolsa da mão de João. Vai ficar agora na nossa frente ? Saia já daí! – continuou, dando um empurrão nele.

João ficou olhando eles seguirem pelo corredor, Helena ia praticamente arras-tada pelo marido, mas se virou para olhá-lo, disfarçando arrumando o cabelo. O mari-nheiro porém voltou a si quando uma menina grandalhona esbarrou nele, tentando passar com algumas malas.

– Desculpa ! – disse. E não esquenta para ele não, é um pouco chato mas, no fundo ele é bem legal. E continuou seguindo, gritando para esperarem por ela.

João Camargo só saiu dali quando eles entraram por uma porta. Um turbilhão de sensações tomou seu corpo, raiva, encantamento, ódio. Seguiu para a balaustrada e ficou pensando no que tinha acontecido. Já não lembrava mais dos gritos, somente de Helena – pelo menos isso ele sabia dela - , o jeito que olhara para ele quando foi apa-nhar a bolsa, quando se virou para trás. Será que ela sentiu esse mesmo frio na barriga quando me viu ? Quando será que vou vê-la novamente ? – pensava. Não sabia o que dizer a ela, mas queria encontrá-la de novo. Longe daquele mal educado, é claro.

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