Vicarius

    
O ponteiro do velocímetro oscilava enquanto avançava na escala. Estava chegando à casa dos cento e quarenta quilômetros por hora. Não havia limites para Maurício. Passara o dia todo em uma orgia combinada com alguns amigos, com umas três mulheres para cada um. Garotas de programa. Maurício havia dito para a esposa que estaria de plantão na fábrica até a madrugada. Eram duas horas da manhã e ele dirigia há pelo menos vinte e cinco minutos, apesar da insistência de seus amigos para não sair àquela hora e nesse estado. Ficava extremamente teimoso quando bebia uns goles de bebida, quanto mais com algumas garrafas...

Seguia a toda velocidade na estrada deserta, margeada por arbustos secos, vegetação rasteira e pequenas árvores. Um nevoeiro diáfano tomou conta do lugar, e os olhos de Maurício pesavam como nunca. Não conseguia controlar-se. Seu sono era embalado pelo movimento do carro e pelo calor produzido por um casaco de moletom negro, com capuz, tendo a inicial de seu nome nas costas em uma grande letra vermelha. Centésimos de segundo foram necessários para perder o controle de seu Gol 1992 em uma curva e capotar duas vezes antes de ser jogado para fora. Sentiu os ossos do pescoço estalarem como vidro ao cair com o rosto ao chão, parando de bruços. Os braços e pernas fora do lugar; suas feições desfiguradas e uma grande poça de sangue davam a impressão de que aquilo não era humano. Era qualquer outra coisa, menos um homem.
 
Levantou lentamente, tremendo. Os olhos ardiam ainda fechados. Uma confusão de sons e vozes assaltaram seus ouvidos e Maurício pôs as mãos em sua cabeça, pensando que ela fosse explodir. Deu um forte grito que poderia ter sido ouvido em toda extensão da rodovia. Então abriu os olhos, a cabeça ainda baixa. Sob seus pés não havia nenhuma sombra, apesar da lua estar quase cheia. Suas pernas ainda tremiam quando ouviu uivos, ganidos e rosnados de cães enlouquecidos, e uma gargalhada estridente ao longe, que parecia cercar-lhe por todos os lados, enquanto um forte vento arrastava em círculos as folhas que caem no outono. Ele olhou assustado ao derredor, procurando a origem dos sons, quando se deparou com um homem alto e extremamente pálido, com os cabelos arrumados para trás, os olhos incisivos, vivos, mas sem brilho. Usava um terno completamente preto, com cheiro de mato queimado.
 
— Quem é você? - perguntou Maurício ainda importunado pela dor na cabeça.
 
— Fique tranquilo, estou aqui para te ajudar... - disse o desconhecido com um sorriso de canto de boca.
 
— O que aconteceu? Eu, eu... não consigo entender... Por que preciso de ajuda? - disse pondo as mãos no rosto.
 
— Venha comigo, preciso mostrar-lhe algo... - disse ele puxando-o pelo braço. Levou-o próximo ao acidente que acontecera ali perto. O carro estava emborcado e pouco havia sobrado dele. Curiosamente, as rodas ainda giravam, lentamente, e o combustível espalhava-se pela pista de asfalto ruim. A alguns metros, estava um corpo dilacerado...
 
— Deus do Céu! Vamos ajudá-lo! Por favor, alguém o ajude! Ele precisa de ajuda... - gritou Maurício tentando se desvencilhar do homem.
 
— Não faça isso, não há mais o que fazer... - interveio o desconhecido, puxando-o novamente pelo braço. - Este é você Maurício... Você está morto.
 
— Como é? Maurício... - murmurou ele balançando a cabeça. - Sim, este é meu nome... Como sabe meu nome?
 
— Eu sei de muitas coisas Maurício... - disse enigmaticamente, dando as costas para o acontecimento.
 
— Esse cara aí não pode ser eu. Eu... estou aqui, estou bem e...
 
— Não seja ingênuo Maurício... - disse rispidamente. - Veja as roupas dele, veja o carro. Aquele carro é seu, não é mesmo? – completou voltando-se para ele.
 
— Sim, m-mas... não entendo como... - balbuciou confuso.
 
— Não se lembra de ter bebido? De ter dormido no volante? Da orgia? Das garotas, lembra-se? - perguntou abrindo a boca num sorriso de dentes amarelados e aparência suja.
 
— Sim, o que disse me lembra algo, mas... não é tão claro assim... Eu não posso ter morrido! - esbravejou ele.
 
— Escute, vamos acabar logo com isso. Ainda tenho muitos outros para buscar... - disse aproximando-se de Maurício, espalhando seu hálito fétido. Sua voz era perturbada, perturbadora. Seu semblante era sombrio e cadavérico, e seus olhos faiscavam avermelhados como o trepidar de chamas. - Dê-me as moedas... - disse estendendo a mão.
 
— Que moedas? Do que está falando?
 
— Eu disse para me dar as moedas! - vociferou erguendo o homem e atirando-o à distância.
 
— Eu não tenho moeda alguma, seu louco!
 
— Você tem que me pagar, ou não o levo a lugar nenhum... - esbravejou vindo rapidamente em sua direção.
 
— E não me levará mesmo. Eu não quero a sua ajuda... – resmungou Maurício virando-lhe as costas e a criatura em surgiu à sua frente, de um redemoinho de fumaça negra. Quando o homem tentou acertá-lo com um murro, ele desapareceu, do mesmo modo que surgira, reaparecendo pertinazmente por trás de Maurício. Seu terno retalhou-se até transformar-se em um manto negro com capuz, que cobria sua cabeça deixando o rosto nas sombras. Com uma das mãos atirou uma corrente que saía de sua manga, prendendo-se em um dos pés do homem, derrubando-o.
 
— Eu sou Caronte, mas pode me chamar de Morte. Se não tem as moedas, levarei outra alma como pagamento. Sua viúva, por exemplo... - disse a criatura enquanto o arrastava pelo chão. Ao ouvir suas palavras, Maurício sentiu uma forte dor na cabeça e algumas imagens lhe surgiram à frente. Sua mulher, sua filha... Todas aquelas mulheres na festa com os amigos. As bebidas, o carro, o acidente... Cerrou os dentes e, com uma força descomunal, alcançou a corrente, que segurou entre as mãos, e puxou, rompendo um dos elos, levantando-se em seguida.
 
— Não me levará a lugar algum, muito menos minha mulher ou quem quer que seja... - disse ele girando a corrente que soltara do pé.
 
— Hei como fez isso? - disse Morte ao voltar-se para sua encomenda. - Não importa. - resmungou, estendendo o braço direito, cuja mão segurava um pequeno bastão, que se expandiu em uma grande foice. - Você é um verme insignificante, e não tem noção do que acontece nos bastidores deste mundo tosco. Acha que sua esposa chorará sua morte? Acha que ela não sabe de suas orgias, de suas putas? Há muito que ela sabe, e desde então, em todas as suas escapadas, ela trepava com quem bem quisesse, só por vingança. Agora mesmo ela está gozando em cima de um vagabundo qualquer, fazendo coisas que nunca fez com você. E a culpa disso tudo é somente sua...

— Está mentindo! - esbravejou ele, girando a corrente com mais força ainda.
 
— Ora Maurício... A física deste mundo o impedia de ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Então, se estava na orgia, seu leito estava desocupado... E ela tratava de ocupá-lo rapidamente. É tão vadia como você.
 
— Você é um desgraçado! Maldito! - vociferou o homem ao golpear-lhe com a corrente, e percebeu que isso o atingia.
 
— Você é meu, Maurício, tudo isso é em vão... Há milênios que atravesso as almas para o mundo dos mortos, acha que é o único que reluta para morrer? - disse Morte num sorriso nefasto, satisfeito, ciente de sua superioridade, erguendo a foice para atacá-lo.
 
O ódio, a vingança e os piores sentimentos que um humano poderia ter tomaram conta de Maurício. O fim era iminente. Seus olhos tornaram-se brasis e malignos como os da criatura. Lançou a corrente com toda força, e ela, prendendo-se no cabo da foice, desarmou Morte. Caronte tornou-se nada mais que um velho mendigo, imundo, carcomido pelos milênios. Arrastava-se no chão, impotente e sem forças, olhando amedrontado para Maurício, sem saber ao certo o que havia acontecido.

— Entenda meu jovem... tudo fazia parte do trato...
 
Ao tocar a foice, o capuz de Maurício subiu, cobrindo sua cabeça, escondendo seu rosto nas sombras, deixando visíveis apenas os luzeiros de seus olhos vermelhos, brilhantes e perigosos.
 
— Eu sou Maurício, mas pode me chamar de Morte... - disse ele enquanto erguia a arma, para, em um só golpe decepar a cabeça do velho barqueiro, que desapareceu convulsionando-se numa nuvem de pó, em meio a gritos macabros.
 

O corpo que jazia perto do carro também se tornou pó, porém, silenciosamente. Percebeu então que não havia mais nada a fazer ali. A foice retraiu, transformando-se no primitivo bastão, que prendeu ao seu cinto. Pôs a mão no bolso e encontrou um velho pergaminho, com letras quase incompreensíveis. Mas ele sabia o que era. Um contrato. Rasgou a folha e seus pedaços desapareceram em pequenas chamas. Deu uma última olhada no carro, emborcado e destruído, e lembrou-se de tudo que Caronte lhe dissera. Tinha agora muito tempo para pensar nelas... Virou as costas e seguiu caminhando, desaparecendo na escuridão, entre uivos, ganidos e rosnados de cães enlouquecidos, e o vento que carregava as folhas do outono.

George dos Santos Pacheco

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