O fantasma da literatura policial


Haron Gamal, professor e doutor em Literatura Brasileira pela UFRJ leu O fantasma do Mare Dei e fez uma resenha, publicada no jornal Folha Carioca, onde escreve, além de ser crítico literário do Caderno "Idéias" do Jornal do Brasil. Haron publicará no final do ano um livro (não-ficção) sobre um poeta que foi amigo de Machado de Assis e também foi um dos fundadores da ABL, chamado Magalhães de Azeredo.

Abaixo, segue a resenha de O fantasma do Mare Dei.

O fantasma da literatura policial

A ficção brasileira contemporânea possui verdadeira diversidade de temas, até mesmo o romance policial não deixa de estar bem representado. O preconceito, que sempre houve a respeito do gênero – considerado por muitos como literatura menor –, parece estar chegando ao fim. Escritores estreantes ou experientes muitas vezes optam por esse tipo de narrativa não apenas com o objetivo de conquistar maior número de leitores, mas para mostrar que se pode escrever boa literatura através de romances policiais. Talvez se possa dizer que todo grande autor gostaria de um dia conseguir escrever um bom romance policial; ou mesmo que, em toda narrativa, há uma espécie de enigma a se descobrir, o que remeteria às histórias policiais.

George dos Santos Pacheco, com O fantasma do Mare Dei, estreia na ficção optando por nos contar uma história policial ambientada num transatlântico. A trama, com personagens que se perseguem mutuamente, tem resultados plenamente positivos. Para apimentar, além de uma interessante história de amor, há pessoas inescrupulosas tentando praticar falcatruas contra famílias ricas e contra o país.

João Camargo é um marinheiro que trabalha no Mare Dei, navio que dentro de algumas horas partirá para Portugal. Um esbarrão em uma jovem junto à ponte de embarque acaba por aproximá-lo da mulher por quem vai se apaixonar. Mas ela é casada e tem um marido muito grosseirão. A seguir há o embarque de um detetive. Ele vem disfarçado de médico do navio, Dr. Schneider. Possuidor da informação de que um procurado estelionatário está no transatlântico tentando escapar para a Europa, ele tem como missão descobri-lo e prendê-lo. Depois que o navio parte, ocorrem a bordo dois possíveis assassinatos, o que complica a vida desse detetive, que nos momentos mais críticos se orienta pela bíblia. Daí em diante, cabe ao leitor continuar sua investigação e tentar decifrar os enigmas antes que o texto os revele. Personagens como o capitão Américo, comandante do navio, e a adolescente Catarina, também são muito bem construídos. O autor se mostra um mestre no difícil mecanismo de escrever diálogos, conseguindo criar períodos bem estruturados e construções frasais que aguçam a expectativa dos leitores.

Nos dias de hoje, há muitas coleções que editam literatura do gênero, como a série policial da Companhia das Letras. A editora tem em seu cast autores das mais diferentes nacionalidades, como Dashiel Hammet, Manuel Vasquez Montalban, John Dunning, Patrícia Cornwell entre outros, e os brasileiros Tony Beloto, Luiz Alfredo Garcia-Rosa e Joaquim Nogueira. A Record edita Andrea Camilleri, criador do impagável Montalbano, comissário de Vigata, leitura divertida e obrigatória para todos os amantes do gênero.

É importante que George Pacheco tenha optado por seguir a trilha desses grandes autores. O livro, no entanto, ressente-se de uma revisão mais apurada. Muitos escritores brasileiros, que não possuem chances nas grandes editoras, merecem editoras mais qualificadas do que a Multifoco. Aparentemente, ela não dá suporte editorial aos autores, deixando passar erros de digitação, ou mesmo escorregadelas gramaticais fáceis de serem corrigidas, caso a editora se preocupasse com a sua imagem no mercado.

Deve-se ressaltar a história da decisão de George Pacheco pelas letras. Ao ver um debate sobre literatura num programa de TV, resolveu escrever um livro. O resultado foi plenamente satisfatório. Caso continue, não se deixando desanimar pela via-crúcis a ser percorrida por aqueles que desejam insistir na literatura, será um bom escritor. E é isso que constitui as literaturas nacionais: uma quantidade razoável de escritores que optam por todos os temas possíveis, sendo estes temas “eruditos” ou populares.

Eis o parágrafo inicial do livro, para atestar a simplicidade e a eficácia deste narrador:

“João Camargo sentou-se à sua cama e ficou olhando pela janela de seu pequeno apartamento. O tempo parecia bom, o sol ainda estava nascendo e corria uma leve brisa. Já era início de outono. Seria um ótimo dia para viajar ou para recomeçar. Era disso que ele precisava, de um recomeço.”

O fantasma do Mare Dei

George dos Santos Pacheco

Ed. Multifoco, 176 páginas

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