O Jantar de Barão Malheiros


Protázio não sabia o que fazer. A menos que ganhasse uma boa grana na mesa, estaria em maus lençóis. Era viciado no jogo, já havia perdido muito dinheiro e posto fora quase tudo que tinha em casa. A sorte é que sua esposa lavava roupa para fora e isso era o que estava sustentando a ele e seus três filhos depois que perdera o emprego. Era um homem de trinta e quatro anos, estatura mediana, e olhos e cabelos castanhos. Sua pele era clara, mas ligeiramente queimada pelo sol. Antes de o jogo começar, gostava de examinar seus adversários.

Três pessoas partilhavam a mesa com ele. O que estava à sua direita era Sr. Etelvino Manso, um senhor de uns cinquenta anos, pacato como uma lebre e de aparência frágil. O da esquerda era Sr. Ananias, um colono, de movimentos rudes e semblante severo. Sr. Leonides estava a sua frente. Era dono de um sítio e o mais endinheirado na mesa. Um homem pequeno, completamente calvo, e de olhos estreitos. Era difícil inferir seu estado de espírito, mas talvez fosse o mais astuto jogador da mesa. Já haviam jogado uma partida de dominó e ele a ganhara facilmente, levando um conto e duzentos mil réis. Protázio precisava ser cauteloso, pois com o dinheiro que ganhasse poderia pagar sua dívida com Barão. O velho já tinha dado seu recado. E essa era a fonte de renda mais rápida e honesta que ele conhecia...

Enquanto Protázio seguia para a venda, os capangas do Barão o seguiram. Ele percebeu e tentou fugir, mas foi em vão. Eram em maior número e rapidamente o alcançaram, dando-lhe uma boa sova. Não bateram, porém, em seu rosto, conforme determinação que tinham recebido. O patrão não queria, como sempre, chamar muito a atenção.

Chegaram carregando Protázio, ainda muito ofegante. O Barão Philadelpho Malheiros o aguardava sentado à mesa, muito bem vestido. Era um homem extremamente gordo e tinha uma grande papada, que mais parecia um segundo queixo. Devia ter uns quarenta e cinco anos. Usava um largo bigode que cobria seu lábio superior e quase o inferior. Era comum usar bigodes para disfarçar dentes podres... Trajava um terno negro e gravata borboleta. Seus olhos eram grandes e fundos, com olheiras escuras, e transbordavam perversidade. Herdara o título de seu pai, que com a esposa formava o casal mais religioso da cercania. Os mais antigos comentavam que ele voltara mudado do exterior, para onde o pai o havia mandado para completar os estu-dos, ainda jovem.

– Olá nobre amigo! Espero que meus empregados o tenham trago em paz... – disse ajei-tando o pince-nez que tinha no olho esquerdo.

– O que o senhor quer de mim? – disse Protázio ao ser colocado em uma cadeira, passando a mão nos braços, com os olhos marejados.

– Ora, você sabe o que quero... Mas não falemos disso! O chamei aqui para jantar comi-go! – disse ao juntar as mãos, como em oração. Seus capangas rapidamente saíram e ficaram os dois a sós. A sala de jantar da fazenda era enorme e mal iluminada. Havia alguns quadros na parede, pintados pela mãe do barão. As pessoas pareciam vigiá-los. Os móveis eram feitos de uma madeira escura e pesada e havia uma fina cortina que tremulava sobre as janelas. Ao lado do Barão estava deitado seu cachorro, um grande mastim negro de aproximadamente oitenta quilos. Tudo isso dava um ar sombrio ao ambiente e Protázio sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.

– Jantar? Mas...

– Não diga nada meu nobre amigo... Apenas, jantemos. Aposto como nunca teve um jantar como este...

Voltou a si. Havia muitos espectadores bebendo em volta da mesa. Acreditou que talvez houvesse outra aposta do lado de fora, para ver quem ganhava hoje. Às vezes os jogos iam até de madrugada, mas eles estavam ali, sorridentes e felizes...

Leonides distribuiu as pedras após embaralhá-las, sete para cada um. No centro da mesa estavam as apostas. Cada um havia contribuído com quinhentos mil réis e quem ganhasse a partida levaria dois contos de réis para casa. Era uma boa quantia. As rodadas eram sempre de três partidas e essa era a segunda da noite.

Etelvino abriu o jogo com um gabão de sena, e os demais começaram a deitar suas peças em sentido horário. Todos contavam mentalmente suas pedras e deduziam a de seus adversá-rios. Vencia quem tinha as melhores pedras e localizava as restantes com destreza. Assim era feita a jogada certa, no momento certo.

Enquanto jogavam, a memória de Protázio o transportou novamente para a casa do ba-rão. Este o olhava fixamente por minutos.

– Desculpe barão, não quero incomodá-lo... – disse o convidado ao se levantar.

– Oh amigo! Não vá ainda. Átila ainda não lhe deu as boas vindas, não é meu menino? – redarguiu, dando um tapinha na cabeça do cão que rosnava deixando seus grandes dentes à mostra. Protázio preferiu ficar sentado.

– Eu vou lhe pagar barão! Eu juro! – disse com temor.

– Mas não precisa jurar meu filho. Me pagará de um jeito ou de outro. Eu lhe garanto... – disse secamente, ao ajeitar uma mecha de cabelo oleoso que caía sobre a testa.

Um de seus empregados surgiu vestido de copeiro, carregando uma bandeja com tampa, que deixou na mesa. O cheiro estava ótimo. Malheiros fez sinal para que ele saísse e foi atendi-do prontamente. O homem saiu sem dizer uma palavra.

– Gostou do cheiro? – perguntou com um sorriso sarcástico. – O que acha de sabore-armos essa iguaria?

O barão retirou a tampa e para espanto de Protázio, havia na bandeja a cabeça de um homem voltada em sua direção, com as mãos apoiadas uma a cada lado, decorada com folhas de alface e rodelas de tomate. Sua pele estava bronzeada pelo fogo e em sua testa era visível um corte em toda a sua circunferência.

– Mas o que é isso? – gritou Protázio ao se apoiar nos braços da cadeira, com os olhos arregalados. – Mas este... é... Sr. Aristarco!

Suas atenções voltaram à mesa. Todos o olhavam seriamente. Sr. Etelvino havia passado a jogada e agora era sua vez. Todos tinham apenas uma única peça nas mãos e essa era sua chance de acabar o jogo. O ganhador seria ele, Ananias ou Leonides. Houve silêncio no bar. Protázio olhou para as duas pontas do dominó, olhou para sua mão que estava em forma de concha e calmamente deitou a pedra na mesa. Um gabão de duque! Havia batido nos dois la-dos! Enquanto Ananias e Etelvino se lamentavam, ele puxou o dinheiro que estava sobre a me-sa para si. Já tinha o suficiente para pagar o barão. Leonides nada falava, nem expressava qual-quer sentimento.

Foi um ótimo jogo e todos lhe cumprimentavam. Mas ele estava em outro lugar. Havia uma cabeça o observando sobre a mesa do barão, com pavor estampado em sua face. Aristarco era um dos empregados do velho. Um humilde lavrador, de aproximadamente trinta e oito a-nos, que tinha desaparecido há alguns dias, inexplicavelmente, deixando mulher e filhos.

– Por que a surpresa querido? Ainda há pouco concordou que o cheiro era agradável... Sabe, ele me devia alguns favores... – disse pegando uma mão assada e jogando ao cachorro. – Tome Átila! Isto é para você! – disse com carinho. O cão devorava ferozmente o quitute.

– Oh meu Deus! – disse Protázio se esquivando na cadeira, assaltado de temor, com lá-grimas correndo em seu rosto.

– Espero que já tenha os dois contos de réis...

– Mas...

– Mas o quê, rapaz? O que achou? Há quase um mês que me deve, e isso são pequenos juros. Espero que entenda, a situação econômica do país não está nada fácil... – disse denotan-do gravidade, franzindo o cenho com um muxoxo. Segurou fortemente os cabelos de seu jantar, que estavam besuntados de óleo, e puxou, abrindo uma tampa na cabeça. Com uma colher polida serviu-se do conteúdo cinzento que lá havia. – Não vai provar? A consistência é de um suflê, mas é muito mais saboroso... – disse.

– O senhor é um louco!

– Mas por que essa agressividade rapaz? Estou lhe tratando com imenso afeto, apesar de me dever dinheiro. Não é qualquer um que se porta assim. Outro em meu lugar lhe comeria vivo... – disse com a boca cheia. O homem degustava sua excêntrica refeição com as próprias mãos.

– Por que faz isso? – disse ele mais calmo, enquanto os ossos da mão de Aristarco esta-lavam na boca de Átila.

– Ah! Meu gosto pela carne humana surgiu há muito tempo. Eu cursava a faculdade no exterior e meu colega de quarto matou uma moça e preparou-a para nós. Eu achei aquilo re-pugnante a princípio, mas depois fui ficando cada vez mais viciado nisso... – disse o velho com o rosto completamente lambuzado. Pegou o lenço que estava sobre o colo e limpou-se.

– Isso... isso é nojento! – disse Protázio virando o rosto. Deu um suspiro e se refez. – Preciso de mais tempo para pagá-lo...

– Você pediu a mão e agora quer o braço? Não jovem... – disse balançando o dedo de forma negativa e estalando os lábios.

– Eu lhe suplico! – disse se ajoelhando, com uma distância considerável do cachorro e do barão.

– Não se humilhe desse jeito. Sabe, um homem jamais deve fazê-lo. Mas veja como sou bom. São nove horas da noite agora. Pois você tem todo o resto da noite para conseguir esse dinheiro.

– Mas é muito dinheiro barão! – disse ele já de pé.

– Se vire. Isso não é problema meu. Agora vá embora! Seu tempo já está passando. Es-cute, estou perdendo meu apetite com essa conversa e isso me deixa muito irritado. Não me quer ver irritado, não é?

– Não senhor... – disse cabisbaixo.

– Então vá, vá! – disse o barão enxotando-o com a mão.

Protázio saiu apressadamente da sede da fazenda. Dali para o bar era um estirão a pé. Agora compreendia o que tinha acontecido com várias pessoas que conhecia. Certa vez uma família inteira havia sumido, e o boato reinante era que tinham ido embora pela madrugada, mas ninguém tinha certeza disso. E outros colonos também haviam desaparecido feito Aristarco. A imagem de sua cabeça a observar-lhe não saía de sua mente. Como alguém pode ser tão cruel? Todos já sabiam da fama do Barão Malheiros, mas isso de devorar gente era um absurdo!

Chegou à venda sério e suando frio. Precisava ganhar, de qualquer jeito. Entregaria o di-nheiro ao barão e sua dívida estaria saldada. Depois disso se mudaria pra longe com a família. Não podia mais viver nessa cidade.

Ainda era congratulado pelas pessoas quando percebeu dois capangas do barão no meio daquela gente. Eles sabiam do seu vício e provavelmente deduziram que ia tentar conseguir o dinheiro ali. Devem ter vindo receber pelo chefe. – pensou. Mas seu semblante caiu quando viu que atrás dos homens estava o próprio barão, sorridente e tranqüilo. Ele se aproximou da mesa e Protázio teve um leve tremor.

– Então amigos? Será que posso me juntar a vocês? – disse ele.

– Perdoe-me barão, mas para mim não dá mais. Hoje não é um dia de sorte para mim... – disse Ananias levantando-se.

– Para mim também ficou difícil. Peço que me perdoe... – disse Etelvino acompanhando o outro. A verdade é que estavam com medo do homem. Era normal esperar isso dele, que era um homem fraco, mas Ananias? Mas Protázio não podia negar que também sentira um arrepio na espinha, ainda mais agora que sabia de tudo. O velho sentou-se e lançou-lhe um olhar, mas ele desviou os olhos.

– Algum óbice Leonides? – disse o nobre embaralhando as pedras.

– Desculpe barão, mas também não poderei ficar. Apostei tudo na última partida, e Pro-tázio levou a melhor. Hoje parece ser o dia dele. Amanhã, quem sabe? – disse erguendo-se e fazendo mesuras.

– Então restou apenas você, não é, jovem amigo? – disse o barão com um sorriso estra-nho.

– Eu já tenho seu dinheiro barão... – sussurrou.

– Oh! Isso é ótimo! Mas eu tenho outra proposta para você... – disse ao ir para a cadeira antes ocupada por Leonides. – Quanto você tem aí?

– Dois contos e quatrocentos mil réis...

– Uh! Quanto dinheiro hein? – disse com deboche. – Ponha isso na mesa e eu porei o dobro. Se me ganhar, perdôo sua dívida ainda ficará com o dinheiro da aposta. O que me diz?

– Desculpe barão, mas talvez fosse mais sensato eu pagar-lhe e ir embora... – disse ao levantar.

– Considere. – insistiu ele. – São sete contos e duzentos mil réis... Uma pequena fortuna! – disse enquanto seus empregados se aproximavam.

Protázio sentiu-se intimidado. Teria realmente que jogar... Fez apenas um meneio de ca-beça e pôs seu dinheiro sobre a mesa.

– Que ótimo ter aceitado! Será muito bom tê-lo como adversário... – disse tirando ma-ços de dinheiro do paletó preto e colocando na mesa. Contou duzentos mil réis do último maço, pôs no bolso e o restante juntou às demais. – Quantas peças são para cada um mesmo?

– Sete... – respondeu sem acreditar. Não era possível que ele não soubesse a quantidade de peças por jogador. Mas isso podia ser um truque e ele não sabia o que esperar dessa partida.

O velho misturou as peças e distribuiu, e as que sobraram deixou à parte para serem compradas no decorrer do jogo. O nobre abriu a partida com o famoso gabão de sena, enquan-to Protázio organizava suas pedras e as levantava para si. Não estava com um jogo bom... E para variar, não havia uma sena nas mãos, e isso agora se tornaria público, pois teria de comprar logo no limiar do jogo. Puxou uma que por sorte era um sena/ás. Deitou-a, e sem pensar, seu adversário pôs um ás/duque. Sim! Duques tinha de sobra! Pôs um duque/quadra. Malheiros ficou um instante olhando suas pedras. Volveu o olhar para a banca, pois precisava comprar peças e isso era muito bom. Ele não tinha sena, nem quadra, mas Protázio tinham umas três peças da última. Usaria isso a seu favor é claro. O velho tirou uma, duas, e somente na terceira peça ele acertou. Sena/quina.

O jogo tornara-se um espetáculo. Várias pessoas estavam à volta da mesa, em silêncio, por respeito ou talvez medo do barão. Bebiam atentos a cada jogada. Ambos tinham seis pe-dras. Deitaram algumas rapidamente, em seqüência, como se soubessem a próxima jogada de cada um. Três peças para cada. Era a vez de Protázio. Durante o jogo nem se lembrava que, do outro lado da mesa, estava o improvável devorador de carne humana...

Uma das pontas era uma sena e estava na hora de atacar. Colocou um terno/quadra de propósito e ficou observando o barão. Alguns cabelos estavam grudados no suor de sua testa e suas narinas estavam mais abertas. Ele puxou outra vez uma pedra da banca, e mais outra. Era uma sena/quadra. Preferiu deixar o jogo com as duas pontas em sena, já que sabidamente Pro-tázio não a tinha. Agora era sua vez de comprar, e estava com muita sorte mesmo... Encontrou de primeira. O barão pôs outras peças sem dificuldade, mas com duas peças a mais, estava em desvantagem em relação a seu adversário. Protázio tinha apenas uma pedra e fez suspense, apenas para tripudiar do adversário. Olhou calmamente para as duas pontas do jogo, uma quina e um terno, e para sua mão. Olhou para a banca que estava quase vazia e finalmente colocou sua pedra. Uma quina/quadra.

O barão passou a mão no rosto suado. Não podia acreditar no que tinha acontecido. Tinha plena convicção de que ganharia este jogo... Não houve jeito. Levantou-se e cumprimentou Protázio. Os espectadores apenas sussurravam. Tiveram medo de comemorar a vitória do ami-go.

– Parabéns jovem. Foi uma ótima partida... Hoje é seu dia mesmo! – disse num sorriso amarelo.

– Obrigado barão... – disse ao apertar a mão do velho. Guardou o dinheiro como pode e foi embora. Não queria confetes. Algo lhe dizia que deveria ir rapidamente para casa, juntar suas coisas e partir. Começaria uma vida nova, e sem apostas. Os litros de água que tinha suado nesta noite deram-lhe essa lição...

Caminhou pela estrada de terra na direção de sua casa. Era uma noite bonita e agradável. A lua estava cheia, deixando tudo prateado e corria uma brisa refrescante de verão. Os sapos coachavam, os grilos criquilavam. Mal podia esperar para estar com sua família! Sua esposa não ia acreditar no que aconteceu...

De repente, ouviu o grito de uma rasga-mortalha e assustou-se. O tal pássaro tinha um piado horrível deveras. Refez-se do susto, mas um trote rápido de cavalo se aproximava e teve uma estranha sensação. Havia algo errado... Olhou para trás e viu a charrete do barão aproximar-se em alta velocidade, e rapidamente ela estava emparelhada a ele. O homem saiu das sombras e apoiado em sua bengala falou-lhe.

– Que surpresa em vê-lo Protázio! Deve ser um sinal... Que tal uma revanche?

– Mas barão...

– Não seja frouxo! – disse ele, e seus capangas saltaram do carro apanhando-o.

– Por favor barão! – disse desesperado, tendo os olhos molhados.

– Ora, não sentirá dor alguma... – disse o velho sem olhá-lo.

Protázio achou melhor não relutar. Não haveria jeito mesmo. E já tinha ganhado dele uma vez, poderia muito bem ganhar outra. Seu medo era não haver nenhuma testemunha além dos empregados do barão.

Chegaram à sala de jantar e os homens seguravam Protázio fortemente. Átila ainda estava deitado roendo a mão do homem e ele percebeu que Aristarco ainda estava sobre a mesa. Seus pelos eriçaram.

– Preparem-no... – disse o velho.

– O que vão fazer?

– O que achou rapaz? Que ficaria por isso mesmo?

– Mas o senhor deu sua palavra!

– Eu menti. Não deveria ter acreditado em mim. Eu estava apenas me divertindo com você, assim como os gatos fazem com os ratos. Isso aguça mais meu paladar! – disse rindo. – Agora chega de falar! E vocês, sejam rápidos! Quanto mais ele sofrer, mais sua carne ficará du-ra... – disse sentando-se à mesa.

– Não! Não! – gritava o homem, se debatendo ao ser carregado.

Barão Malheiros virou a cabeça de Aristarco para si e ficou observando-a, enquanto de-leitava-se com os gritos desesperados de Protázio. Ouviu também sons que lembravam móveis estilhaçando e aquela sinfonia lhe era muitíssimo agradável. Deu um sorriso e um tapinha na face corada de Aristarco.

– Enquanto o prato principal não vem, você será meu tira gosto... – disse cravando um garfo no olho do homem, puxando e cortando o nervo com uma pequena faca.

Pôs em sua boca e mordeu fortemente para romper a conjuntiva e sorver o líquido do interior. Subitamente um vento impetuoso apagou as lamparinas, deixando a sala iluminada apenas pelo luar, no mesmo instante em que os gritos e sons do outro compartimento cessa-ram. Malheiros virou-se na direção de onde vinha o vento e deixou de respirar. O olho do ex-empregado estava preso em sua garganta. Levantou-se com dificuldade, derrubando a cabeça que lhe fazia companhia.

O mastim permaneceu do jeito em que estava, como se nada acontecesse. O homem tentava gritar, pedir ajuda, mas era impossível! Faltava-lhe ar e ninguém percebia. Arrastava-se desesperadamente segurando o pescoço com ambas as mãos e em pouco tempo caiu de joelhos, tombando de lado, sugando o pouco ar que ainda possuía.

Protázio adentrou a sala ofegante, com o corpo coberto de sangue, segurando uma grande faca. Incrivelmente havia conseguido se desvencilhar dos homens que deveriam ser seus carrascos. Caminhou cuidadosamente na sala de jantar e olhou com assombro a cena a sua frente. O barão estava caído ao chão, e seus olhos estavam arregalados de pavor. O grande cachorro lambia-lhe a face, enquanto ele tinha ainda alguns leves espasmos. Ao seu lado estava Aristarco observando-o assustadoramente, com um largo sorriso, e os dentes à mostra. O sorriso de um vingado... Nessa mesma noite Protázio descobriu que a vingança, realmente, é um prato que se come frio.

George dos Santos Pacheco

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