Quem foi Tiradentes?


TIRADENTES: A ORIGEM DO MITO E O MITO DE ORIGEM
 Sérgio Vaz Alkmim

"Amanheceu o dia 21 de abril, que lhe abriria a eternidade" [Últimos momentos...p.108], assim descreve o frei Raimundo Penaforte últimos momentos de Joaquim José da Silva Xavier. Morre o homem, nasce o mito. Forjado pelos franciscanos, confessores dos inconfidentes, o ideal cristão é projetado na figura de Tiradentes. Torna-se modelo de homem cristão, generoso, arrependido, castigado, mas preparado para bem morrer. Segundo os confessores, ele recebeu sereno e convencido da gravidade de seus pecados a sentença condenatória. Após a leitura do Decreto Régio, que apenas o condenava à morte, sua reação foi de alegria pelos outros réus favorecidos pelo perdão real, e pouco trabalho tiveram em seu consolo. Descrevem sua caminhada para o cadafalso, como se fosse o próprio Cristo: beija os pés e perdoa o carrasco; recebe a alva, despe a camisa e caminha com o crucifixo na mão.

É desta forma que se formaliza a primeira tentativa de criar uma memória histórica da Inconfidência Mineira e, também, a construção da imagem de Tiradentes. Os frades confessores estavam preocupados em perpetuar, através de memórias e discursos, uma determinada versão que surge como vestígio de uma época e como representação dela. Demostram suas preferências e a imagem de si próprios, marcados pelos conflitos de uma sociedade.

O mito sobrevive. Martirizado, figura central de um acontecimento, sua imagem é a construção dos ideais cristãos: humildade, arrependimento e esperança de vida eterna.

O marco historiográfico que coloca a Inconfidência Mineira novamente em evidência é o livro de Joaquim Norberto de Souza e Silva, História da Conjuração Mineira, de 1873. Em um trabalho de fôlego, pela primeira vez são utilizados os Autos da Devassa e as memórias dos frades franciscanos. Na vida ou na morte, Tiradentes não foi bem acolhido pelo monarquista Joaquim Norberto: "Morrera o Tiradentes, não como um grande patriota, com seus olhos cravados no povo, tendo nos lábios os sagrados nomes da pátria e da liberdade (...) mas como cristão preparado há muito tempo pelos sacerdotes" [v.2, p.221]. Portanto, não acreditava que Tiradentes tivesse condições, principalmente pela sua falta de caráter, de ser o cabeça da conjuração.

Porém, os primeiros republicanos , em busca de um herói nacional, encontraram nele, o símbolo mais que perfeito. Utilizaram a imagem deixada pelos franciscanos, pois segundo o historiador José Murilo de Carvalho, em seu livro A Formação das Almas, naquele momento "Tiradentes não deveria ser visto como herói republicano radical, mas sim herói cívico-religioso, como mártir, integrador, portador da imagem do povo inteiro" [p.70]. Acertaram no alvo. Tiradentes caiu no gosto popular e nunca mais deixou de estar presente no nosso imaginário político e social.

No dizer de Mircea Eliade, historiador das religiões, sobrevive na condição humana a angústia perante o tempo. Desta forma, o pensamento mítico não está morto, sobrevive adquirindo novas formas, novos disfarces e, principalmente, reside sob os auspícios da historiografia.

O Tiradentes dos frades franciscanos consegue reunir em torno de si as principais características do pensamento mítico analisado por Eliade. Segundo ele, o cristianismo conserva um comportamento mítico através do tempo litúrgico que acaba por recusar o tempo profano, recuperando periodicamente um grande tempo, as origens primordiais. A imitação de Cristo como modelo exemplar, a repetição de seus passos pela vida, a morte, a ressurreição, constituem a contemporaneidade do cristão.

A imagem de Tiradentes, herói nacional, mito de origem moderno do nosso ideal de liberdade, sobrevive no tempo. A historiografia da Inconfidência Mineira e o jogo de interesses políticos e ideológicos cumprem o papel de perpetuar o mito e alimentar ilusões no imaginário coletivo. O cenário cristão da sociedade brasileira acalenta o virtuoso Tiradentes.

Sérgio Vaz Alkmim

TIRADENTES, O BODE EXPIATÓRIO
Laura Pinca

Novos estudos históricos apresentam uma inconfidência mineira diferente daquela que nos narram os livros didáticos.

Embora a historiografia oficial considere a inconfidência mineira (1789) como uma grande luta para a libertação do Brasil, o historiador inglês Kenneth Maxwell, autor de "A devassa da devassa" (Rio de Janeiro, Terra e Paz, 2ª ed. 1978.) que esteve recentemente no Brasil, diz que "a conspiração dos mineiros era, basicamente, um movimento de oligarquias, no interesse da oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa", e que objetivava, não a independência do Brasil, mas a de Minas Gerais.

Esses novos estudos apresentam um Tiradentes bem mudado: sem barba, sem liderança e sem glória. Segundo Maxwell, Joaquim José da Silva Xavier não foi senão o "bode expiatório" da conspiração. (op.cit., p. 222) "Na verdade, o alferes provavelmente nunca esteve plenamente a par dos planos e objetivos mais amplos do movimento." (p.216) O que é natural acreditar. Como um simples alferes (o equivalente a tenente, hoje) lideraria coronéis, brigadeiros, padres e desembargadores?

A Folha de S. Paulo publicou um artigo (21-04-98) no qual se comentam os estudos do historiador carioca Marcos Antônio Correa. Correa defende que Tiradentes não morreu enforcado em 21 de abril de 1792. Ele começou a suspeitar disso quando viu uma lista de presença da Assembleia Nacional francesa de 1793, onde constava a assinatura de um tal Joaquim José da Silva Xavier, cujo estudo grafotécnico permitiu concluir que se tratava da assinatura de Tiradentes. Segundo Correa, um ladrão condenado morreu no lugar de Tiradentes, em troca de ajuda financeira à sua família, oferecida pela maçonaria. Testemunhas da morte de Tiradentes se diziam surpresas, porque o executado aparentava ter menos de 45 anos. Sustenta Correa que Tiradentes teria sido salvo pelo poeta Cruz e Silva (maçom, amigo dos inconfidentes e um dos juízes da Devassa) e embarcado incógnito para Lisboa em agosto de 1792.

Isso confirma o que havia dito Martim Francisco (irmão de José Bonifácio de Andrada e Silva): que não fora Tiradentes quem morrera enforcado, mas outra pessoa, e que, após o esquartejamento do cadáver, desapareceram com a cabeça, para que não se pudesse identificar o corpo.

"Se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria pelo Brasil". Como só tinha uma, talvez Tiradentes tenha preferido ficar com ela.

Fonte:

Pacheco também é cultura!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.