Entrevista Henry Evaristo

É com pesar que comunico que um amigo escritor se foi. Seu nome é Henry Evaristo. Nos conhecemos na Internet, após ser convidado por outro amigo escritor a participar de um fórum de literatura fantástica, ou simplesmente LitFan - termo criado pelo próprio Henry. No ano passado tivemos a idéia de entrevistarmos cada um dos membros do fórum e o primeiro a ter este privilégio foi este amigo. Como forma de homenagear Henry e inaugurar este espaço de entrevistas em meu blog, publico a mesma a seguir, que foi formatada pelos nobres escritores Fórum da Câmara dos Tormentos.

Henry Evaristo, falecido em 16 de fevereiro de 2010, foi o fundador deste espaço cultural voltado para a Literatura Fantástica. Era uma figura extramente carismática e importante tanto para a Litfan, de modo geral, quanto para os membros do FORUM DA CÂMARA DOS TORMENTOS, de modo particular. O nobre escritor escrevia desde os doze anos e tinha absoluta fascinação pela literatura fantástica. Dificilmente realizava leituras sobre outros temas e admitia isso, mesmo sabendo que tal postura podia ser prejudicial ao seu potencial crítico. Era acriano, historiador inteligente, professor, músico, mantinha um blog voltado à Literatura Fantástica (Câmara dos Tormentos), do qual emprestou o nome para este fórum.

A obra de Henry Evaristo se compõe de mais de 70 textos curtos, entre contos e poesias sombrias, muito bem escritos e elaborados, que ele os disponibilizava “online” e, ainda hoje, há uns tantos em inúmeros sites e blogs espalhados neste mundão virtual da Internet. Há alguns poucos meses, antes de morrer, ele reuniu seus melhores contos online no livro “UM SALTO NA ESCURIDÃO”, que ficou, assim, como um legado significativamente importante para os admiradores e amigos que conseguiu conquistar, por sua visão crítica e inteligência afiada no trato das coisas fantásticas. Fica aqui, então, um registro de suas últimas considerações sobre a Litfan e sua vertente, por ele, mais querida: o terror.

[AFONSO LUIZ PEREIRA] - Henry, sabedor de que você é um homem de visão no contexto fantástico, gostaria de lhe perguntar especificamente dentro deste tema: O que mais te irrita e o que mais lhe dá prazer ou satisfação nesta relação literária no mundo virtual?


Nossa! Um período de reflexão às dez da manhã! Rrrrssr!. Muitas coisas me irritam e me dão prazer no universo virtual da literatura fantástica. Mas acho que poderia afirmar que uma coisa realmente muito irritante é a postura de alguns (muitos) escritores de litfan espalhados por aí que se portam como se fossem alguma coisa entre Stephen King e algum tipo de intelectual ideal que habita somente as mentes deles. Acho que posso trocar isso em miúdos e afirmar que me irrita profundamente o pedantismo de vários escritores e donos de blogs de literatura fantástica que existem hoje na net; todos querendo saber tudo, dominar tudo, ser melhor do que todos. A postura de alguns blogs que atuam com essa postura também me irrita muito. Tenho visto endereços aí cheios de frescuras, cheios de nove horas, cheios de burocracias, pedindo até o atestado de óbito da avó do escritor para poder publicar seu texto e quando vou ler os trabalhos já publicados descubro que a maioria esmagadora é de homéricas porcarias! Isso me irrita muito!

O que me dá prazer? Também tem muitas coisas que me dão prazer na literatura fantástica virtual. Me dá prazer ver como a movimentação em torno da gênero tem se expandido. Ver como os blogs relacionados estão com cada vez mais visitas e como os escritores nacionais estão se mobilizando, criando eventos, concursos, promovendo encontros no mundo real...isso é muito prazeroso. Ver que o publico para estes escritores, brasileiros, está aumentando é muito bom.

Me dá prazer a receptividade ao meu trabalho; receptividade que para mim só é possível na internet sem a qual eu jamais teria nenhum tipo de reconhecimento. As amizades que fiz são muito boas, valorosas. Se não fosse a internet eu jamais teria a oportunidade de me relacionar com pessoas tão incríveis.

Outro grande prazer neste ambiente é meu blog. Ver como ele cresceu e se tornou um dos endereços dedicados à litfan mais visitados da internet brasileira. Isso me dá um prazer enorme. Sei que existem blogs por aí com oitocentas mil visitas, mas...eles não são de litfan! São de mulher pelada! rsrsrsrsrs!

[FLAVIO SOUSA] - Henry, decorrido algum tempo desde o lançamento do seu livro solo, gostaria de saber a sua opinião a respeito do resultado obtido até agora?

O resultado é o esperado levando em consideração os preços praticados pela editora que lançou a obra. Comercialmente falando, não há resultados ainda. Apenas três exemplares foram vendidos. Isso não me surpreende, e nem me desestimula, pois sempre soube que seria assim desde o momento em que não disponho de um aparato massivo de divulgação e sou um escritor desconhecido do grande publico; quem irá pagar um preço alto pelo trabalho de um escritor do qual nunca ouviu falar num volume que não se tem como saber a qualidade até que ele esteja em mãos? Somente os amigos mais próximos e, no meu caso, nem isso, (risos).

Há, no entanto, um outro aspecto: muito me satisfaz saber que agora eu tenho um livro de verdade, em papel, e disponível para quem eventualmente o quiser adquirir. Isso me permite ter uma outra apresentação para mim mesmo como escritor; dá um mundo diferente ao meu falar como escritor, me assegura o direito de dizer que não sou mais um escritor não publicado. Não importa se vendeu, se não vendeu, ou se venderá. Importa é que ele existe. De qualquer forma, mesmo que estivesse sendo vendido mais do que sorvete no deserto, eu não teria vantagem financeira nenhuma pois, em ordem de poder baixar o preço, abri mão de minha comissão de direitos autorais.

Creio que posso afirmar que até o momento o resultado para mim é positivo em termos de realização pessoal. Obviamente se de repente começasse a vender horrores, isso seria fantástico pois me permitiria até a ousadia de começar a pensar num segundo livro, (risos).


[LINO FRANÇA JR.] - Em sua opinião, qual o motivo pelo qual a Litfan nacional não decola de vez, visto que obras de autores estrangeiros vendem bem no Brasil, além de outros veículos do gênero fantástico/terror, como o cinema, ter boa aceitação pelos brasileiros?

Essa é a pergunta que não quer calar.

Quando falamos em literatura fantástica estamos nos referindo a um gênero e não a um estilo, e este gênero é imenso. O que é literatura fantástica? Grosso modo, é a literatura que, obviamente, lida e descreve o fantástico em nossas vidas. Por esta ótica, desde livros sagrados como o Zend-Avesta e a Bíblia, passando por Drácula e Chapeuzinho vermelho, tudo é fantástico. Temos que tentar entender, o melhor possível e usando as conjecturas típicas dos historiadores sem respostas (risos), o que se pensa sobre litfan no Brasil.

Creio que em nosso país a litfan tenha sido associada a algo como um "estilo" híbrido de literatura e por isso acabou perdendo ou se desviando de seu universo comercial. Como assim? Ora, quando falamos literatura fantástica, o imaginário popular brasileiro evoca imagens de fadas, castelos, bruxas, unicórnios, lagos mágicos, bosques encantados. E o que é isso? É um tipo de literatura que está mais ligada ao universo infantil ou juvenil. Ocorre que a fantasia é somente mais um dos estilos que compõem a litfan; e esse estilo aparentemente povoa o senso comum como se ele mesmo representasse a litfan como um todo. Ocorre que a fantasia é um estilo praticamente todo direcionado para o público infantil e dificilmente você verá um adulto se dedicando á sua leitura. Com isso o mercado potencial para a litfan já sofre uma queda substancial; pela ignorância popular sobre o gênero. Frequentemente ouço, em círculos de leitores adultos e supostamente intelectuais, coisas como " Ah, esse negócio de Lovecraft, Hans Christian Andersen, Tolkien, Bram Stocker, irmãos Grimm, é coisa pra criança. Não perco meu tempo! Eu gosto mesmo é de Saramago!" Então, com certeza há essa confusão mental na maioria dos leitores nacionais. Claro que uma parcela mínima de leitores mais esclarecidos poderá encontrar em Saramago elementos de litfan, mas dizem que o próprio escritor tem pavor de ser identificado dentro deste gênero pois considera que a litfan é uma literatura meramente de entretenimento, e ele, sendo um escritor sério jamais poderia aproximar-se deste nicho.

Saramago nos coloca este outro viés da questão: A litfan como literatura de diversão. Sempre foi assim, desde o começo, desde Horace Walpole. É um gênero que tem seu apogeu, digamos assim, num século em que as pretensas luzes do conhecimento científico estavam ofuscando toda e qualquer emoção; e ora, litfan é 90% emoção e 10 % de calos nos dedos, srsrsrrs. Esse banimento dos meios intelectuais é a raiz do problema da litfan em nossos dias. É a origem dos preconceitos que se acirra em países extremamente pobres e religiosos como o Brasil onde desde sempre o povo foi acostumado a considerar que a literatura precisa necessariamente ter alguma função política ou social ou, ainda pior, de doutrinamento para alguma coisa.

Mas tem ainda outro detalhe importante e este é mesmo bem peculiar destes nossos dias vorazes: estamos presenciando uma atividade sem igual nos meios "litfânticos". Nunca se viu uma mobilização entre os escritores de litfant como esta que a internet tem nos proporcionado. Sites, blogs, concursos, antologias; toda semana recebo convites para pelo menos uma nova antologia relacionada ao gênero. Porem! A qualidade dos textos apresentados é ainda muito diferente daquela que poderia servir para valorizar o gênero; aliás, muitas coletâneas por aí prestam muito mais um desserviço à causa do que qualquer outra coisa. E esses textos e escritores ruins, acabam corroborando aquilo que os intelectuais de plantão defendem: que a litfan, afinal, é mesmo uma literatura menor, cujos próprios escritores não se levam a sério e escrevem contos como se escrevessem listas de supermercado.

Não vou mencionar aqui a arrogância e o pedantismo na postura de alguns escritores de litfan pois já falei disso na primeira pergunta, mas creio que esse também é um fator que pode estar atrapalhando esta decolagem definitiva do gênero em nosso país. Quando você é arrogante, prepotente, você não evolui, não aprende mais nada, para por alí mesmo. Nosso querido nobre super barão Von Sorian, há coisa de dois anos, creio, teve que ouvir poucas e boas de um escritor que exigia que seus textos horrorosos fossem publicados pelos CONTOS GROTESCOS, que é o mais importante site de litfan em língua portuguesa. O sujeito não admitia não ser publicado e não possuía discernimento para entender que o que ele apresentava era muito ruim. Estava tomado pela soberba, pela arrogância, e jamais chegará em lugar algum. Como ele, existem centenas, milhares por aí, fazendo a cabeça da opinião pública contra a lit fan; literalmente, queimando nosso filme.

[GEORGE PACHECO] - Quando surgiu sua paixão pela literatura, em especial, a do universo fantástico?

A literatura fantástica já foi meu inicio, meu meio, e será certamente meu fim. Nunca houve nenhum outro tipo de literatura para mim se não por intermédio da própria litfan. O primeiro livro que li na vida foi Drácula mais ou menos em 1985, acho. Claro que houveram elementos que me levaram a querer ler Drácula; o cinema fantástico, as entrevistas em quadrinhos de terror, tudo dos anos 80. Na verdade adquiri o romance Drácula por engano. Vi um anúncio em uma revista do Círculo do Livro e, achando que se tratava de uma edição de luxo de Drácula em quadrinhos, perturbei minha mãe até que ela o comprasse para mim. Pra minha surpresa, quando o retirei da embalagem dos correios, descobri que não se tratava de um gibizão do Drácula e sim de um livro só com...letras!

Bem, já estava com o livro nas mãos...resolvi ler. E assim nunca mais me afastei da litfan.

[VICTOR MELONI] - Henry, gostaria de saber quem são, na sua opinião, os 10 mais da Litfan mundial, e se existe algum autor equivocadamente supervalorizado. Se há, por quê você acha que isto acontece?

Uau! Que pergunta difícil! Vou ser bem direto nesta pergunta.

Vamos lá!

Os dez mais da litfan mundial:

H.P. LOVECRAFT

ARTHUR MACHEN

EDGAR ALAN POE

AMBROSE BIERCE

GUY DE MAUPASSANT

CLARK ASHTON SMITH

E.T.A HOFFMAN

CLIVE BARKER

SHIRLEY JACKSON (que entrou pra historia com A Assombração da Casa da Colina)

ALGERNON BLACKWOOD (principalmente pelo elemento naturalista que domina sua obra e que é uma grande influencia pra mim, seus vales, montanhas e florestas...)

Bem, existem com certeza muitos autores supervalorizados por aí. Não vou falar da Anne Rice de novo se não vai ficar parecendo que eu não gosto dela, srrsrsrsrssr.... Então, acho que um escritor que é supervalorizado atualmente é mesmo o Stephen King. Uaaaaa! E o céu desaba! Bem, mas é isso. O cara conseguiu escrever uns 4 ou 5 livros realmente bons e nada mais, ora! E a mídia norte-americana fez o resto pra ele. King é um escritor de terror que escreveu alguns livros bons e nada mais. Não deveria ser chamado de o mestre do terror moderno, de jeito nenhum. O chamam assim por que ele é o escritor de terror que mais vendeu, isso sim é fato. É o grande mestre de fazer dinheiro com livros ruins, enormes e enfadonhos.

Tenho que admitir que seu livro O CEMITÉRIO é um dos meus preferidos, um livro realmente tétrico; mas em nenhum outro momento de sua literatura, King conseguiu alcançar o mesmo nível de força deste livro. Então, me parece que O CEMITÉRIO foi mais um golpe de sorte do que propriamente maestria.

[LEONARDO NUNES NUNES – SEGUIDORLOVECRAFT] - Eu percebo que há pouco espaço para autores nacionais que se dedicam às letras (admitindo que são poucos os autores que conseguem destaque nacional!) e não são reconhecidos como os "medalhões" da literatura que ocupam cadeiras na Academia Brasileira de Letras (exemplos de acadêmicos: Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony, assim por diante); e que não têm espaço nas editoras nem espaço nas prateleiras. Qual é a tua opinião sobre isso? Só por que o escritor está ocupando uma cadeira da ABL deve ter maior destaque na literatura nacional? Merece maior respeito?

Aproveito para fazer dois subitens:

6.1) O que você acha que pode mudar esse panorama? A internet trouxe até o escritor um espaço para expor suas obras, mas ainda assim manteve a distância.

6.2) Agora eu entro em outra camada da discussão: na tua opinião, existe diferença entre escritores (a maioria como nós) do sul, do norte, do nordeste? Uma espécie de 'preconceito' à obra (Não no quesito qualidade, mas no quesito aceitação)?

Cá pra mim, a Academia Brasileira de Letras é um clube de amigos, fechado, e que só se encarrega de celebrar, louvar, entronizar, os nomes daqueles autores que já estão aí há tanto tempo que não se pode deixar de convidá-los para entrar para o grupo. Também é um clube de autores "mainstream", que já publicaram trocentos livros, já venderam trocentas cópias e apareceram toda semana na Hebe Camargo. É um clube da luluzinha para habitantes de museus. Claro que a academia também é um mecanismo da boa e velha elitização da literatura no Brasil que sempre tenta de alguma maneira concentrar tudo nas mãos de grupos isolados e herméticos; ora, quem é da academia é que é escritor de verdade, quem não é, é só curioso...l

Nós, da literatura fantástica séria, sempre seremos Literatura alternativa, sempre seremos "leitura para um publico específico". Ainda bem! Se não, se um dia a litfan virar literatura mainstream, correremos o risco de ver Brunas surfistinhas lançando romances de vampiros prostitutos feitos de algodão-doce, vendendo dez milhões de livros e entrando para a Academia por isso a exemplo de nosso querido Paul Rabbit.

Em tempo, nunca li nenhum livro do Moacyr Scliar, nem do Carlos Heitor Cony e nem da Bruna surfistinha. Pra falar a verdade, eu só suportei ler um único livro de literatura brasileira em toda a minha vida: Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva. Ah, li o livro do barão também, mas ele não é um escritor de literatura brasileira, é universal!

Agora para as lojas de livros, se você for um membro da ABL é por que você é muito bom e isso significa que seu livro vai vender mais que sorvete no deserto; automaticamente, sua obra vai para a vitrine da frente da loja iluminada por spotligths e se possível com algumas modelos semi-nuas fazendo pose o dia inteiro do lado dele, mesmo se o assunto tratado forem os métodos utilizados no vaticano para a eleição do papa.

Não tem jeito, não tem nem o que questionar: É da academia, então você está num Olímpio de escritores nacionais e as lojas (e a mídia!) o tratam como um deus das letras e principalmente das vendas. Claro que as livrarias não fazem essa promoção toda somente por escritores que são da ABL, existem outros fatores determinantes no processo de priorização de um livro de um determinado autor dentro das livrarias.

6.1) O que você acha que pode mudar esse panorama?

Nada pode mudar esse panorama, isso vai ser assim para sempre. A internet trouxe sim uma maior possibilidade para autores iniciantes mostrarem seus trabalhos, ficarem conhecidos, mostrarem o que sabem fazer. Fantástico! incrível! Mas a mesma internet originou uma nova geração de consumidores de obras artísticas: Aqueles que acham uma idiotice pagar para ter acesso a um disco, filme ou livro srrssr. A maioria dos internautas que leem contos, baixam e-books, baixam musicas e filmes da internet o fazem por que é de graça. Se você cobrar R$ 1,00 que seja pelo download, você correrá o risco real e imediato de ver sua obra mofar nas prateleiras virtuais do seu site ou blog.

De forma geral, hoje em dia, comprar mesmo, tirar a grana da carteira pra dar num livro, só mesmo nas livrarias onde estão quem? Quem? Os membros da ABL, hauhuahuhua! Então, o melhor que um escritor tem a fazer ainda é dar um jeitinho de ser convidado, rssrsrsr.

6.2) Agora eu entro em outra camada da discussão: na tua opinião, existe diferença entre escritores (a maioria como nós) do sul, do norte, do nordeste? Uma espécie de 'preconceito' à obra (Não no quesito qualidade, mas no quesito aceitação)?

Sim, com certeza há diferenças entre escritores das diversas regiões do país mas não por questões de preconceito. O motivo é mais simples: a localização. Eu sempre costumo dizer que se o André Vianco, por exemplo, no inicio de sua carreira tivesse escrito seu primeiro livro, bancado a primeira edição do mesmo, e ido peregrinar nas livrarias lá de Quixeramobim ele ainda estaria por lá hoje, pensando seriamente em comer as páginas de seus livros para não morrer de fome. Se o Paulo Coelho morasse aqui no Acre, por exemplo, o máximo que ele teria conseguido na vida era ser o macumbeiro da esquina. Se o John Lennon tivesse nascido em Sobral, Yesterday hoje seria um hit do baião pé de serra conhecido somente entre Itapipoca e Ubajara, (risos)!

Os casos de artistas, seja da literatura, da musica, do cinema, de fora do eixo Rio-São Paulo, que conseguem se projetar no cenário nacional e ficar famosos (e ganhar dinheiro) são extremas exceções, casos raros mostrados até pelo Fantástico! Tudo gira em torno do Rio e São Paulo. O sul tem uma vida artística privilegiada mas também encontra muitas barreiras na hora de projetar seus artistas nacionalmente. Felizmente a concentrada valorização da atividade cultural local nos estados do sul permite que os artistas possam tocar suas artes por lá mesmo, viver delas, mesmo sem serem conhecidos nacionalmente, pelo menos nas capitais dos estados.

É uma pena constatar que apenas dois estados brasileiros sejam capazes de projetar artistas nacionalmente. Isso só pode indicar que a cultura no Brasil é mesmo negligenciada pela mídia, pela indústria e pela população também. Por que mesmo estando em SP ou RJ o sujeito tem que matar dez leões por dia para conseguir fazer sua obra chegar ao conhecimento da grande mídia e de lá para o público.

Não deveria ser tão difícil aparecer na tv, nas rádios, nas revistas, mostrando sua obra, sua criação. Aliás, os canais de mídia nacionais abertos e a cabo, deveria ser obrigados por lei a ceder espaço para artistas promoverem seus trabalhos.

[CELLY BORGES] - Quais livros você tem vergonha de ter lido, não conta pra ninguém, mas agora chegou o seu momento, conte-nos! Livre sua alma destes pecados! E não esqueça de dizer o porquê?
O Vampiro Lestat. Porque ele tinha a capa...cor de rosa! Ainda bem que o cachorro o comeu.

Porcos com Asas. Porque não tem nada daquilo que eu esperava que tivesse...

A Hora das Bruxas 1 & 2. Por que passei uns dois anos lendo aqueles dois calhamaços e não vi bruxaria nenhuma; só letras, letras, e enrolação! (risos)

A Cozinha Maravilhosa de Ofélia. Porque nunca consegui que ninguém fizesse pra mim nenhuma das receitas que tem lá!

Acho que não tem mais nenhum. Sempre que pego um livro pra ler é por estrito interesse. Então dificilmente pego para ler um livro de que me envergonhe depois.

Ah, tem mais um, mas não me envergonhei do livro e sim de mim mesmo. A Rebelião de Lúcifer, por que li duas vezes e não entendi nada! (risos)


[ LUIZ POLETO] - Na sua opinião, quais foram as principais mudanças - sejam estilísticas, ambientais, conceituais, etc. - que ocorreram ao longo dos tempos na Literatura Fantástica, em especial, na de terror? Se fosse para fazer uma comparação, você diria que a Literatura de terror de hoje é pior do que a de antigamente?

Basta pensarmos na literatura de autores como Horace Walpole, Emily Brontë, Ann Radcliff, Mary Shelley, Edgar Poe, Bram Stoker, Lovecraft, Algenon Blackwood, para sentirmos esse abismo imensurável que separa a litfan clássica da contemporânea. Claro que a qualidade da litfan mudou para pior. No século XIX e até nas primeiras décadas do século XX havia, nas principais regiões do mundo, uma atmosfera de racionalismo e cientificismo que envolvia todos os produtores de cultura, os formadores de opinião, os intelectuais, estudiosos, pesquisadores, em fim, todos aqueles que lidavam com alguma forma de conhecimento. Nesse tempo, Júlio Verne despendia horas, dias, semanas, meses, estudando sobre um único aspecto geográfico, geológico, físico ou químico de alguma de suas obras somente para não correr o risco de falar bobagens em seu texto. E para isso, ele tomava aulas com professores das áreas específicas que lhe interessavam. Como ele, diversos outros autores deste período prezavam pela erudição de seus trabalhos. Ora, a mídia e a academia estavam de olho no que esses malucos fantasiosos produziam, para falar mal, para fazer chacota e para confirmar suas teses de que litfan era, de fato, literatura menor. Esse sentimento de necessidade em elevar o nível para ser levado a sério, misturado ao contexto histórico em que se inseria, por exemplo, a literatura gótica; em meio ao desenvolvimento científico das disciplinas, as novas descobertas em países exóticos e no ramo da medicina, da física, da química, da biologia, da antropologia e de dezenas de outras áreas de conhecimento, faziam com que os autores tratassem de elaborar cada vez com mais afinco suas obras. Eram todos homens muito cultos, estudiosos, reflexivos.

E havia muito espaço para a reflexão sobretudo na Europa, em Londres, em Paris. Havia os salões de leitura, onde homens de letras e de sabedoria se reuniam para discutir, fumar charutos e refletir sobre assuntos exóticos, sobre os pigmeus, sobre os nômades, sobre os mistérios das pirâmides, sobre as possibilidades do magnetismo animal, do ocultismo, da metempsicose, da prestidigitação. Tudo isso parece mais um contexto cinematográfico, mas não é! A Europa do século XVIII, XIX início do XX não era só assim, mas era assim também!

E nos EUA não era muito diferente! Apesar de que os maiores escritores de litfan da história são norte-americanos, mas todos eram profundamente influenciados pelo contexto europeu, sobretudo o inglês e o francês. E também essa revolução mental ocorria fortemente em solo americano. Ora, França e Inglaterra enviavam suas influencias para todo o mundo e até no Brasil tivemos episódios profundamente influenciados por esta efervescência social, política e cultural européia.

Acho que nem preciso mais dizer se a litfan clássica era melhor que a atual, né!? Em nossos tempos, não há mais esse contexto europeu. Não há mais o estarrecimento diante das coisas da ciência que levou pessoas como Bram Stoker e Mary Shelley a escreverem seus romances clássicos. Não há mais o neogoticismo dentro da concepção artística que era moda nos séculos passados. E sobretudo não há mais a preocupação da auto-afirmação da litfan como gênero culto e elevado tanto quanto os outros. Com o passar do tempo, a litfan parece ter se acomodado com o lugar que lhe relegaram: o da literatura pop, simples, apelando para explicações inverossímeis por pura falta de pesquisa e dedicação de seus autores. E pior: sendo elaborada dentro de linguagens simplórias demais afim de atingir o maior numero de leitores possível para poder vender cada vez mais e mais. Foi-se o tempo em que autores famosos da litfan internacional morriam pobres, doentes e loucos!

Claro, tudo isso pode ser encarado como papo de velho: "Ah, antigamente é que era bom!". E o fato de que os escritores consagrados de litfan estão milionários pode ser encarado como uma conquista. Ok! Mas também é fato que essa conquista foi obtida muito mais com o prejuízo da qualidade literária em favor do atendimento às tendências de mercado. Ora, ninguém quer mais ter que comprar um dicionário junto com o livro de terror que vai ler... (risos)

Existem livros excelentes dos anos 50, 60, 70 e 80. Grandes clássicos como Invasores de Corpos, Vampiros de Almas, O Exorcista, são livros excelentes da época pós-moderna. Me parece mesmo que o grande problema da qualidade está na nossa época, nesta atual em que vivemos. Mas isso também não quer dizer que toda literatura contemporânea é automaticamente ruim. Acho que é uma questão quantitativa: em termos gerais, a literatura clássica é melhor do que a atual por que mais bem feita, mais bem engendrada, mais profunda e é tudo isso por que é menos comprometida com o lucro. Não é feita para as massas, é feita para quem quiser gostar dela.

Hoje em dia não há mais espaço na mídia para artes setorizadas. Tudo tem que agradar a todos. Os especialistas e os experimentalistas estão banidos! E ficaram os generalistas, que escrevem para as massas e do jeito que elas querem. Em breve teremos livros escritos em internetês, vcs vão ver! (risos)

Em termos de estética, acho que podemos observar como os castelos assombrados da literatura gótica foram trocados pelos apartamentos e casas assombradas; as mocinhas inocentes que Drácula mordia, foram substituídas por garotas de índole duvidosa disfarçada de liberalidade sexual; os vampiros diabólicos do século XIX deram lugar aos rapazinhos alegres que tomam sangue por acidente e morrem de nojo de ter que fazer isso, rssrsr, monstros homicidas que se escondem em pântanos perderam a vez para geladeiras assassinas que se escondem em cozinhas, camisinhas psicopatas que mutilam o usuário e zumbis que falam ao celular enquanto curtem um som.

[TÂNIA SOUZA] - Henry, em várias ocasiões, você se referiu à música eletrônica como uma grande paixão. Poderia nos falar um pouco mais sobre esse fascínio e, em sua opinião, quais são as personalidades realmente importantes no cenário musical contemporâneo? A relação que você tem com a música relaciona-se de alguma maneira com a sua paixão pela literatura?

Dizem que determinados grupos de pessoas costumam gostar de determinados grupos de coisas. Observo isso, por exemplo, com relação ao terror e ao humor: A maioria das pessoas que são muito ligadas ao universo do terror, têm bastante bom humor e apreciam também determinados filmes e livros de comédia, creio que tenha algo a ver com o espírito anarquista e reacionário destes dois universos; terror e humor, ambos apresentam versões alternativas do mundo criticando ou analisando, cada um a sua maneira, a ordem natural das coisas e os costumes das sociedades.

Mas eu observo isso também com relação à musica. Noto que boa parte dos escritores de terror atuais são fãs de musica pesada, heavy metal e diversas de suas vertentes, musica gótica ou musica industrial e música progressiva. Ora, a musica eletrônica de vanguarda, ou a dita musica eletrônica séria se insere no universo do rock progressivo, apesar de o pessoal do rock se morder com essa verdade, mas é a única verdade. Portanto, eu me insiro aí nesse meio também.

Nos anos setenta os pioneiros do rock progressivo começaram a, por algum motivo, aproximar suas concepções artísticas musicais das histórias de ficção científica. Grupos como Pink Floyd, Emerson Lake And Palmer, Alan Parson's Project e Hush passaram a se deixar influenciar profundamente pelos filmes, livros e gibis de ficção-científica. Por outro, lado, tanto na Europa, sobretudo Alemanha e França, quanto nos EUA estava havendo uma época de grandes descobertas e inovações tecnológicas dos equipamentos de áudio e instrumentos musicais. Era a aurora dos sintetizadores! E muitas bandas até mesmo deixaram de ser grupos de musica acústica para se tornarem bandas de musica sintetizada, como é o caso dos pioneiros do Kraftwerk. Antes mesmo deste período, vários maestros eruditos, regentes de orquestras sinfônicas na Europa, haviam deixado de trabalhar com instrumentos acústicos e adotado os novos instrumentos eletrônicos que estavam surgindo todos cheios de possibilidades sonoras e musicais que iam mil anos além das possibilidades dos instrumentos "normais".

Lá por 1973, 74, 75, a aproximação entre grupos de rock progressivo ou psicodélico, e as bandas de musica sintética se deu com bastante força. E é possível se ouvir discos tanto do Pinik Floyd quanto do Kraftwerk extremamente semelhantes neste período. Ora, no meio de tudo isto, está a ficção-científica, que trabalha concepções literárias que vão de encontro aos anseios destes novos artistas da musica, ela lida com as coisas que vão além, que transcendem; lida com o futurismo! Nenhum estilo poderia reunir mais elementos que combinassem com a sonoridade de grupos como Tangerine Dream, Can, Pink Floyd, Vangelis, Jean-Michel Jarre, Alan Parson's Project, Silver Apples, Neu!, Can, e tantos outros, do que a ficção-científica. Ora, é a Sci-fi que nos leva para o espaço, o espaço nos propões mundos estranhos, esses mundos sugerem alienígenas que, por serem diferentes de nós são automaticamente maus e temíveis, e isso tudo conduz ao medo, ao estarrecimento, ao terror! E aí está a conexão de tudo isso com a literatura de terror, que por acaso se tornou a minha preferida.

Agora, se quisermos trazer tudo isso para um campo mais existencial, podemos dizer que pessoas que gostam de literatura fantástica e de musicas que evoquem as sensações de futurismo próprias da sci-fi são, geralmente, pessoas que sentem uma necessidade premente de se abster, de se separar da realidade em que vivem, pois não gostam dela ou não se sentem totalmente integrados a ela, são, portanto, gêneros e estilos de arte que proporcionam uma fuga momentânea da realidade através de sons transcendentes que fazem com que possamos fechar os olhos e imaginar outros mundos, ou... de textos que descrevam esses outros mundos e situações fora do normal.

Essas eram características de grupos de musica progressiva dos anos 70 e 80, são ainda características de grupos de musica industrial atuais e sobretudo, são características da sonoridade de bandas sérias de música eletrônica. Ora, e são características também da litfan!

Obviamente, nem todo mundo que curte litfan automaticamente curte musica eletrônica, mas essa ligação mental e o desenvolvimento destes gostos correlacionados nas pessoas tende muito fortemente a ocorrer, como ocorreu comigo e com diversas pessoas que conheço.

[ PAULO SORIANO] - Agora é a vez do Barão, com uma pergunta deveras curta: Henry, como é saltar na escuridão?

Ih, acho que essa é a mais difícil de todas! (risos) Mas talvez a resposta seja tão curta quanto a pergunta:

Saltar na escuridão é deixar falar a noite que o ser humano trás dentro de si desde sempre, e que nossos sistemas sociais nos treinam a manter bem escondida. É se divertir com o olhar que o abismo lhe dá quando você o encara por muito tempo...É ter ao menos...uma ... "simpatia pelo diabo"! (risos) É adorar a beleza do feio, a perversão da poesia, e a escuridão dos instintos mais primitivos.

Saltar na escuridão é se deixar afundar para dentro do caldeirão de nossas próprias sombras e das sombras do mundo que nos cerca, e saber enxergar essas sombras, lidar com elas, domesticá-las e fazê-las agir ao seu comando ainda que temendo-as profundamente. O autor de terror é um domador das trevas! Mas, os descuidados podem acabar dominados por elas...

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Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
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