Tilapolândia


Era um dia de alto verão na cidade de São Paulo, o asfalto devolvendo os raios ultravioletas do Sol, tornava a cidade ainda mais quente, formando a ilha de calor.

José da Silva era motoboy e morava no distrito de Riacho Grande, que fica a menos de trinta quilômetros de São Paulo, é banhando pela represa Billings, rodeado pela Mata Atlântica, um lugar de alento para o calor infernal da grande metrópole.

Naquele dia, Zé, havia chegado mais cedo e aproveitando o horário de verão resolveu ir pescar, para acalmar a mente do trânsito e aliviar os olhos da poluição, eram por volta das dezoito horas e o Sol ainda estava bem alto.

Então tomou suas varas, iscas, sirizera e outros apetrechos e seguiu para a represa, porém antes, parou no bar do Alfredo e comprou a boa e velha cana destilada, para afogar as magoas que as mulheres provocavam.

Assim que chegou a represa, se ajeitou, e começou a jogar as varas, porém naquele dia não estava para peixe, mas pouco importa. O gostoso mesmo era estar em volta de toda aquela natureza.

E nesse clima goles e mais goles de aguardente, até que Zé ficou embebedado e sonolento, diria os livros de auto-ajuda que ele estava em estado alpha, mas de repente, um borbulho forte na água se fez acontecer.

Zé olhou fixamente para ele e dela surgiu uma cabeça de tilápia que o olhou fixamente e disse:

-Olá pescador!

Não acreditando naquilo, Zé jogou a garrafa de bebida fora, e pensou que estava delirando e perguntou abobalhado:

-Desde quando tilápia fala?

-Desde sempre que eu me lembro! – Respondeu a tilápia sem alteração em seu rosto. – Na verdade. – Continuou. – Existe toda uma sociedade de tilápias e estamos aos poucos tentando fazer contato com os humanos, mas sempre é difícil, porque vocês são muito maus.

-Ora, nem todos os humanos são maus! – Há humanos bons também, eu sou uma pessoa muito boa!

-Então vou lhe propor uma coisa para ver se é verdade o que diz! –Vou levá-lo a Tilapolândia e deverá guardar segredo de nossa existência, se conseguir iremos acreditar que nem todos os humanos são maus.

-Tudo bem tem a minha palavra, porém como irei para Tilapolândia?

-Será simples...

Então a tilápia fez um bico e da boca saiu uma bolha com um comprimido minúsculo e disse para o Zé tomar aquele comprimido, pois lhe permitiria respirar de baixo d água, assim ele o fez e mergulhou na represa.

Era incrível, ele podia respirar na água e sua visão era perfeita, foi seguindo a tilápia até num certo ponto no fundo da represa, onde havia rochas e uma pequena caverna, por lá passaram, ao findar o caminho da caverna, um grande vale aquático se abriu e lá estava, esplendorosa cidade de Tilapolândia.

José da Silva não podia acreditar no que via, as ruas eram limpas e brilhantes, prédios em formas de cristais, os idosos tinham respeito, todas as crianças estavam na escola e tudo funcionava perfeitamente sem que ninguém desse ordem.

A tilápia anfitriã levou-o até um grande gerador que consumia uma grande quantidade de energia, e disse:

-Esse gerador é o que faz toda nossa sociedade funcionar, porém estamos passando por um momento terrível. Nosso nível de energia está perigosamente baixo.

Zé não entendia desses assuntos e não ousou perguntar, pois estava maravilhado com tudo aquilo.

Mas mal o seu pensamento se concluiu, ouviu-se um grande tremor e aqueles entraram em alvoroço, então Zé olhou e correu até numa parte da cidade muito alta e dali dava para ver uma grande fossa marinha.

E de lá saía um redemoinho que vinha de cheio para a cidade, então a tilápia anfitriã disse:

-Nós somos pequenas e não podemos conter tal ameaça, mas você é grande e forte e pode nos ajudar.

-Como posso ajudar? – Zé perguntou de olhos arregalados.

-Para nós este redemoinho é muito grande, mas para você é pequeno, então é só se aproximar dele e empurrá-lo para outra direção.

Zé ficou um tanto vacilante, mas após ouvir mais um grito de pânico, nadou rapidamente em direção da ameaça, porém conforme se aproximava, tudo parecia ficar mais lento, tudo parecia estar ruindo.

Em sua mente os prédios de São Paulo caiam pedra sobre pedra, apesar de estar debaixo d água o suor corria em seu rosto, porém uma paz interior tomava conta de todo o seu ser.

E neste instante mágico ele se abraça com o redemoinho que se acalmou e ficaram dançando e lentamente foram indo para o fundo, cada vez mais, até sumirem pela penumbra.

A tilápia anfitriã observou tudo de longe e assim que tudo findou, olhou para o gerador de energia que estava completamente cheio de combustível e virou-se para uma tilápinha e disse:

-Os homens nos caçam e acabam com tudo que amamos, então nossos antepassados inventaram esse gerador para sustentar nossa sociedade utópica, porém nosso gerador é movido a sangue humano, por isso de tempo em tempo temos que pescar um humano.

E assim aquela sociedade de peixes continuou a viver secretamente naquela misteriosa represa.

Na manhã seguinte, o Sol de verão se levanta no bucólico distrito de Riacho Grande, os bombeiros resgatavam um corpo que havia se afogado no inicio da noite anterior, era o corpo de José da Silva e naquela mesma manhã saiu em manchete no jornal popular:

“Motoboy se embebeda e morre afogado!”

Amadeu Paes

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