Café Literário: Feliz Aniversário


O assopro com força que fazia tremular a chama era desanimado. As palmas quebravam a serenidade que tinha fumaça cinza saindo da vela. Trinta anos! “Parabéns!” Todos sorriam, todos estavam alegres. Enquanto minha mulher cortava o bolo eu me retirei, peguei uma cerveja e me joguei no sofá. Estava exausto. Quantas pessoas me congratulavam? Quantas me congratularam? Ou melhor, quantas não? “Feliz aniversário!”. A cerveja gelada me refrescava um pouco. Eu ainda via a fumaça da vela dançando no ar...

Alguns amigos bêbados relembravam algumas façanhas minhas, outras deles. Todos riam. “Feliz aniversário!”. Alguém chegou atrasado. Outra gravata... Tenho saudade da época que ganhava brinquedos. Antes eu ficava animado para o meu aniversário chegar. Ansioso. Hoje, o que eu não quero mais é ganhar mais presentes. Ou melhor, gravatas. Minha mulher me entrega um pedaço de bolo. Eu como sem vontade. Alguém me chama ao longe para que eu possa confirmar uma história. Apenas aceno com a mão. Faço positivo sem saber o que é e todos riem. Como outro pedaço do bolo. A fumaça da vela já não estava lá...

Trinta anos! Me encaminho para a mesa onde a vela repousava. “Feliz aniversário!”. Alguém que saia se desculpando a pressa. Houve um tempo que as coisas eram mais simples. Acendo a vela novamente e encaro a chama. Minha mulher sorria conversando com Paulo, amigo meu do trabalho. Se é que posso chamá-lo de amigo... Eu sabia que havia algo entre os dois. Se pudesse apagar isso tão facilmente quanto essa vela...

Assopro. Gosto de ver a chama tremular e se apagar. O risco da fumaça levantando dançando. Serena. “Feliz aniversário!”. Alguém interrompe o momento. Trinta anos! Estou velho. Ou melhor, estou novo. Estou novo demais. O que minha mulher acharia de eu pedir o divórcio agora? Fazer um grande escândalo na frente de todo mundo? Volto a acender a vela e volto a apagá-la. Seria tão bom ver ela tão embaraçada na frente de todo mundo. Chamá-la de puta na frente de todo mundo... Mas eu não tenho coragem. A fumaça é tão bonita...

Acho que não resta nada a fazer. “Feliz aniversário!”. Abro a porta para aquele casal ir embora. Pessoas boas, como a maioria aqui. Tranco a porta, guardo a chave no bolso. Trinta anos! Imagino como vou sair no jornal. Vão me chamar de louco? Vou até a cozinha e pego a garrafa de álcool. Queria ter um motivo melhor para fazer isso do que simples vingança. Acho que quero mais é aparecer. Pouco importa. Corto a mangueira do gás. Vou até a sala onde todos estão. Todos sorrindo, todos felizes. Não... Não acho que seja por vingança. Eu apenas gosto das chamas dançando. É uma pena eu não poder ficar para ver a fumaça...

Acendo a vela. Me dirijo até a minha esposa. Ela sorri para mim, está encabulada. Paulo provavelmente já teria marcado o próximo lugar para o próximo encontro. Abro a garrafa de álcool e jogo nela. “Você está louco?! O Que você pensa que está fazendo?”. Ela grita. Sem responder atiro a vela nela. O fogo sobe, ela grita. Todos se desesperam. Alguém me agarra pela gola. Está gritando comigo. Eu não me importo. Só quero ver a chama. A chama e a bela fumaça negra que saía tão serena de minha mulher...

Paulo corre com ela para a cozinha. Vai jogar água nela para apagar. Desespero. Todo mundo desesperado. Por que somente eu consigo apreciar a chama? A chama e a fumaça. O gás... Tão lindo a bola de fogo... A bola de fogo e a fumaça. Um silêncio momentâneo antes da grande agitação. Todos correm em direção à porta. Ninguém consegue abrir. O fogo se espalha rápido pelo carpete. Outra pequena bola de fogo quando pega na garrafa de álcool. Assopro as chamas e grito para mim mesmo: “Feliz aniversário!” O fogo sobe em minhas pernas. Todos gritando tentando abrir a porta. A chama é linda. E essa fumaça...

Luciano Alencar
Recanto das Letras

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