Feliz Aniversário! - por Flávio de Souza

Uma data especial merecia providências tão especiais quanto, era assim que pensava. Observava o vapor nublar a superfície do vidro temperado do box durante o longo e cuidadoso banho. Deslizava a ponta do indicador direito sobre o plano úmido, descrevia vários corações recheados com as iniciais de seus respectivos nomes. Já havia separado seu melhor terno, o qual comprara exclusivamente para a ocasião. O perfume importado e os caros sapatos, que complementariam a produção para tão especial ocasião, também o aguardavam num canto da suíte. Comemorariam o primeiro aniversário do que costumava chamar de “nova fase do casamento”, e para tanto precisaria estar irrepreensível, sua esposa merecia tamanha dedicação, afinal, sempre fora uma boa companheira, mesmo durante as fases turbulentas da relação.


O período inicial fora repleto de felicidade extrema, a não ser pelas ocasionais discussões por motivos fúteis, sobretudo pelas acusações infundadas e pela falta de compreensão por parte da mulher. Para ele, o que era tratado como ciúme doentio, nada mais era do que zelo e preservação do casamento, uma instituição que a modernidade estava levando à ruína, mas isso não aconteceria com ele, não mesmo. Seria tão difícil para ela compreender que em um casamento a mulher deveria ser tratada como um bem precioso? Que era um verdadeiro tesouro do marido? Ela deveria entender, e agradecer, por ser preservada e mantida longe dos olhos revestidos de cobiça, daqueles que só desejam e anseiam a infelicidade alheia. Ao lembrar desses momentos, ele sente uma sensação ruim, percebe uma onda de inquietação invadir-lhe por completo, precisa respirar fundo e recobrar o raciocínio, afina,l tudo já havia sido superado, não existia motivo para lamentação naquela noite, apenas comemoração pela data.

As taças e a garrafa de vinho são depositadas cuidadosamente ao seu lado, os presentes e demais coisas que necessitava já estavam acomodados no automóvel. O local marcado para o encontro era distante, precisaria dirigir por algumas horas, mas a distância era irrelevante quando o que estava em jogo era algo maior, eterno, e disso ele tinha absoluta certeza. Enquanto guiava apressado, era assaltado por lembranças ingratas, verdadeiras pontadas que faziam seu sangue ferver em uma ira crua e irracional. Como seria possível aquele sujeito vislumbrar a possibilidade de tocar em seu tesouro? De imaginar que seria digno de pleitear algo que não lhe pertencia? Não, não adiantava sua esposa insistir que não estavam mais casados, que existia aquela baboseira de divórcio, nada disso era real, não mesmo. Ela seria dele para sempre, nenhum juiz poderia determinar as rédeas de sua vida.

Ah, mas as recordações também traziam satisfação, certamente, e lembrar de como cuidara do maldito intruso, daquele que ousara se intrometer em sua felicidade, isso sim, o enchia de contentamento. A maneira sórdida com a qual invadira sua própria casa, evidente, porque aquela casa era dele, por direito; o jeito sutil e sorrateiro de se esgueirar pelos corredores, oculto pelas sombras, até a investida definitiva. Ele apreciou cada momento, o frenesi enlouquecido da lâmina cortando o ar e dilacerando a carne do maldito, o sangue impuro produzindo marcas vivas nas paredes, escorrendo pela madeira envernizado do machado, maculando o recanto sagrado do seu espaço de direito.

Aquele infeliz teve o que merecia, nunca mais desejaria o tesouro alheio, porque agora, cada parte do seu execrável corpo estaria fadado a ser devorado pelos vermes em diferentes pontos daquele sítio, o mesmo sítio no qual acabara de entrar. Sua esposa o aguardava, estava protegida agora, nunca mais alguém ousaria se interpor entre eles, a felicidade nunca mais seria ameaçada.

A mesa é posta de maneira impecável, velas aromáticas queimam apoiadas em castiçais de prata, mas para ele o que mais importava era a presença do seu bem mais precioso, a adorada mulher que para sempre permaneceria sob seus cuidados. Ela estava ali, diante dele, resguardada pela mesma proteção de madeira de lei na qual a depositara há um ano atrás. Embora não apresentasse os mesmos contornos e a pele reluzente que tanto apreciava, ainda exibia o mesmo sorriso, e este permaneceria estampado pela eternidade em seu rosto. Eles mereciam celebrar a data, era o primeiro dos muitos anos que estavam por vir nessa nova união, por conta disso ele retira do bolso do paletó uma pequena caixa negra e aveludada, e de dentro dela um delicado anel dourado, no qual uma imponente pedra reluzente estava incrustada.

Suavemente ele segura a mão do esqueleto e posiciona a jóia no mesmo dedo que ostentava uma aliança, tinha a plena certeza de que nunca mais precisaria se preocupar em perdê-la, não existiria mais separação, de fato esta fora a sua melhor idéia, a única e definitiva maneira de mantê-la ao seu lado. O homem de feições rudes e envelhecidas não consegue esconder a emoção e deixa escapar uma lágrima enquanto olha para os restos mortais da mulher e diz:

- Feliz aniversário, querida!
 
Contato com o autor: flavio.desouza@tapme.com.br

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