Feliz Aniversário - Por Tânia Souza

Não gosto de aniversários, não ofereço nem aceito presentes. Enerva-me sobremaneira a convivência com pessoas que fazem destes momentos algo além do simples cotidiano. Há tempos minha consorte aprendeu a aceitar essa ojeriza, datas me assustam, me apavoram. Datas impedem que sejam relegados ao esquecimento instantes que deveriam ser eternizados apenas na memória. No entanto, nem sempre essa fobia estivera comigo. Na manhã que definitivamente me faria horrorizado com comemorações, Arildo, meu padrinho, vestiu seu melhor terno, perfumou-se e, mal o sol nasceu, saiu de casa tendo nas mãos angulosas as mais belas flores do campo e uma carta em papel elegante. Pude vê-lo percorrendo a cidade segurando estas preciosidades. Era um sujeito alto, magro e soturno e estava noivo, antes de noivo, amargara longa viuvez. Muito tempo se passara até que voltasse a viver a vida e tivesse a coragem de abandonar a fidelidade a Ana, seu primeiro amor.

Foi a última vez que vi os passos rápidos de meu estranho conselheiro. Quando as estrelas começavam a surgir e ele não voltou, a noiva desesperou-se, cruzava as pequenas ruas em busca do noivo e ninguém sabia do seu paradeiro. A cidade parou em busca de Arildo, mas o homem simplesmente desaparecera. Por toda noite procuraram, entretanto, somente no dia seguinte, alguém se lembrou: era outubro e todos os anos, naquela data, Arildo levava flores para sua falecida esposa no cemitério da cidade.

A pequena comitiva dirigiu-se apreensiva ao cemitério, eu seguia apenas de longe, admirava-me muito mais aquela comoção tão rara que a ausência do padrinho. Distraído entre as lápides, apenas ouvi quando encontraram a carta. Corri a tempo de ver sobre o túmulo, ao lado de flores cuidadosamente arranjadas, um papel amassado jazia.

Era a carta escrita por Arildo, uma carta que o delegado leu com apreensão. Nas letras caprichosas, lia-se uma mensagem e quase com espanto ouvíamos e imaginávamos a imagem sisuda do padrinho:


Feliz aniversario amor.
Desculpe-me as olheiras, o rosto pálido. Confesso que esta noite não pude dormir, tamanha ansiedade tomava-me que o sono se foi e a cama parecia repelir-me. Eis-me aqui com teu presente, por muito tempo pensei no que te oferecer nesta data tão especial, um presente que mostrasse meu amor e a eterna fidelidade que sempre te dediquei. Decidir não foi fácil, estive conversando com pessoas diversas e cada uma sugeria-me algo, alguns, tolos, não entenderam a relevância desse momento, outros, misteriosamente, pareciam conhecer e entender os desejos de meu coração, pois esta é uma data especial, eterna. Hoje é nosso aniversario de casamento; hoje, quero apenas oferecer minha promessa de que, ainda que tenha encontrado uma nova companheira, para sempre te amarei. Receba estas flores amor. Aguardo o dia que novamente estarei em teus braços.

Para sempre teu

Arildo


Um silêncio respeitoso e comovido pairou no ar quando o delegado fez uma pequena pausa, entretanto, antes que a pequena aglomeração começasse a falar, o homem que representava a lei limpou a garganta e prosseguiu a leitura, a voz grave levemente alterada:


É nosso aniversario de casamento e também eu tenho um presente, eis que ainda nesta noite, dormirá enfim em meus braços. Feliz aniversário meu amor.

Para sempre tua,

Ana


Em letras trêmulas, destacavam-se estas rubras palavras, palavras que penetraram no imaginário dos que ali estavam e por muito tempo seriam relembradas. As testemunham e, posteriormente, firmas reconhecidas em cartório confirmaram: aquelas letras disformes foram escritas com sangue e traziam a caligrafia da falecida Ana.

O delegado abominava o que as provas revelavam e por muitos dias buscou uma explicação racional, todavia, somente quando conseguiram autorização para abrir o caixão, encontraram o corpo de Arildo. O horror da descoberta abalou-me profundamente, apavorando minhas noites por muitos anos, eu que contrariando a todos espiava e corajosamente aproximei-me da cova reaberta, pude ver novamente meu padrinho. A face em decomposição deixava entrever um terror absoluto. Nas mãos feridas, podíamos notar a ausência de um dos dedos, e nos demais víamos ossos gastos nas pontas, unhas quebradas e cobertas por sangue enegrecido que parecera ter escorrido entre os dedos dilacerados por farpas da madeira. Unhas que marcaram profundamente a tampa do ataúde. Foi-nos impossível não imaginar as tentativas desesperadas que teriam se realizado na tentativa de mover a tampa do caixão. Para nosso maior espanto e pavor, os ossos que outrora foram as mãos da nobre Ana, guardavam firmemente o dedo arrancando de Arildo, despojado da aliança de noivado que agora brilhava no dedo da horrenda caveira. Arildo encontrara a morte enlaçado ao abraço possessivo de seu primeiro e eterno amor.

Contato: http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=18551&categoria=M""

Pacheco também é cultura!

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