Fantasma Indiano na Inglaterra- por Rudyard Kipling

A História que se segue é apropriada ao momento, em primeiro lugar pela terra natal do fantasma, já que o episódio narrado ocorreu pouco antes da última Eleição Geral; em segundo lugar porque o Natal se aproxima, e é quando os fantasmas, como as ostras, eclodem.

Um cavaleiro solitário – que melhor ou mais corriqueira abertura pode haver para uma história de sangue e horror? Mas neste caso a solidão do cavaleiro era tão inegável como era também desconfortável para ele – portanto, um cavaleiro solitário seguia o seu melhor caminho – e entre o melhor e o pior pouca diferença havia: tudo era excepcionalmente ruim – para ir de Chester a Tarporley. Quem conhece esta parte da Inglaterra há de concordar sem discussão que para uma jornada longa em uma tarde enevoada e úmida de fevereiro se deve escolher o melhor roteiro: e o nosso cavaleiro solitário, chegado há pouco da Índia, não estava nada satisfeito. Depois de chapinhar quilômetros e quilômetros por estradas retas sem cercas, por trechos de capim encharcado e pinheiros lúgubres, por poças e brejos, caniços e espinheiros sem encontrar viv’alma desde que deixara a paisagem mirrada e sem verde da zona do sal-gema – onde as ovelhas são pretas como tinta e o capim que comem é áspero da fuligem das minas -, quando finalmente a estrada bifurcou e um lado da tabuleta indicava “Tarporley 6 milhas” e o outro “Budworth ½ milha”, ele naturalmente olhos suspiroso para a estrada de Budworth. Ao crepúsculo que baixava ele via a cintilação das luzes nas janelas da aldeia, ouvia a algazarra de meninos brincando, e -= melhor que tudo – via o clarão vermelho de um fogo no que, sem dúvida, era a estalagem. Isso o inspirou, e ele virou o cavalo para “O George”. Um jantar, uma lareira, uma garrafa de vinho; depois, em estilo bem moderno, eis o nosso cavaleiro solitário sozinho com os seus pensamentos. Talvez o frio da viagem o tenha deixado melancólico; talvez ele lamentasse não ter levado adiante a intenção de jantar em Tarporley. Seja como for, estava inquieto, e várias vezes se levantou para olhar na janela.

Na noite fria a neblina úmida de chuva cobria de branco marcos e glebas. Um vento de força crescente enche a velha casa de ruídos incômodos e joga a chuva em golfadas contra a vidraça.

A criada da estalagem dá uma olhada antes de ir dormir, “só para saber se o senhor precisa de alguma coisa”. Como ele não precisa, ela lhe deseja boa noite e caminha hesitante para a porta; depois se volta: “Eu não ficaria acordada esta noite, patrão. Não é bom ficar acordado à noite neste tempo. Dormindo a gente não escuta.” “Não escuta o quê?”, ele pergunta. “É só o que posso dizer; e o senhor pode achar que é o vento.” A porta se fecha abruptamente e a criada desaparece.

“Que raio de coisa será que ela pensa que existe para se ouvir?”, reflete o nosso cavaleiro. Ele se sente novamente atraído pela janela, e depois de dar uma ou duas voltas pelo quarto, pára e olha para a escuridão.

A chuva tinha cessado, e alguma coisa parecida com o luar se mostrava fracamente por entre as nuvens em disparada. O vento gemia triste na aldeia silenciosa, balançando a tabuleta da estalagem até ela cair no cemitério da igreja com um suspiro de alma de morto. Adiante, o vulto quadrado do moinho ergue-se negro mas impreciso acima da longa extensão de campo com sua linha de colmos. Batidos pelo vento, os amieiros perto do moinho tremem juntos. Era como se se inclinassem para cochichar uns com os outros e com os salgueiros mais baixos, cujos galhos chorões agitam braços fantasmagóricos para a água negra da margem. As longas rugas do pântano se desmancham no barranco, e há um farfalhar entre as canas, elas também parecendo se inclinar para cochichar. “Está chegando, escute!” Longe na água escura o lúcio gigante surge de repente na superfície; e o pio fantasmático de alguma grande ave aquática a distância como fugindo do lugar assombrado com asas de vento. Depois o vento também parece abaixar para ouvir de respiração contida – e bem acima do vapor do pântano, onde fica aquela quinta em ruínas, mera mancha à beira da extensão de água de água fumegante, ergue-se intermitente na neblina um eco comprido, baixo, melancólico. Não de todo desconhecido, ele soa em certos ouvidos e leva certamente, por associação de idéias, de volta a noites solitárias na jângal da Índia.

Ele abre a janela e olha para fora. O eco cresce e morre na distância depois do pântano onde a estrada se entorta para entrar na aldeia. “Está chegando!” O vento estremece e salta e dispara pelo capinzal coberto de névoa até alcançar a charneca, os pinhos, qualquer coisa longe da quinta em ruínas à beira do pântano, longe do cemitério com o teixo estiolado à entrada.

Uma vez (assim contou a dona da estalagem a nosso viajante quando ele apeou à porta) aquele teixo foi uma árvore esplêndida, que agitava os robustos galhos verdes ao vento como outras árvores; mas há anos uma praga caiu nela, dizem. Ela foi murchando e secando; quando os galhos não tinham mais folhas, apareceu pendurada do galho maior uma corda preta, esticada como se sustentasse um corpo. “O crime será descoberto” dizia o povo. Um velhinho disse que quando criança ele tinha instalado um balanço lá, e que a corda devia ser a do balanço, mas ninguém acreditou. Alguns diziam que o velho Cowp, que morava na quinta perto do pântano, agora em ruínas, e maltratava muito a filha, poderia dizer mais sobre a corda e a finalidade dela. Mas o velho Cowp e a filha já tinham sumido há muito tempo, ninguém sabe por que nem para onde; desapareceram de repente, e ninguém quis ficar com a quinta. Quando o teixo secou e a corda apareceu, a aldeia inteira se convenceu de que Cowp tinha praticado a tal coisa horrível, e a quinta dele ficou com má fama e virou tapera. Ninguém vai lá, nem de dia; de noite o vento se diverte nela. Segundo dizem, faz anos o vento não balança graveto nem corda, e de noite as crianças que passam lá passam correndo. De um mês ou pouco mais para cá, o “Cão do Diabo” tem uivado na aldeia toda noite; os uivos vêm da quinta do velho Cowp, circulam a árvore e entram no cemitério, onde ficam querendo abrir uma cova. Por isso todos estão convencidos de que o velho Cowp morreu e que o espírito mau dele voltou para assombrar o lugar onde faz a sua maldade e tentar abrir uma cova para os ossos de sua vítima no cemitério.

Tudo isso o nosso viajante relembra agora enquanto ouve o eco lamentoso se aproximando; e olha apreensivo para a noite escura. Um silêncio de morte baixou sobre água e terra, como um manto opressivo, sufocante. O lamento fantasmal fica mais alto e mais perto. As famílias se encolhem em suas camas e murmuram: “É o Cão do Diabo! Está chegando!” O uivo agora é claro e repentinamente perto, e justo quando a porta se abre de sopetão e a estalajadeira, aterrorizada, diz, “senhor, é ele!”, nosso viajante reconhece o inconfundível arranhar de um chacal indiano. “Não é fantasma, minha senhora, é cachorro selvagem ou raposa. Se eu estivesse na Índia diria que é um chacal comum. “Jack All, o senhor diz? Oh, Tom, você aqui!” Era o estalajadeiro parado na porta, mais apavorado do que a mulher. “Tom, qual é o nome que davam àquele lobo estrangeiro que fugiu do circo em Tarporley em agosto passado e nunca mais foi visto?” “Tratavam ele de Jack All, mulher.”

O nosso viajante foi logo para a cama. Numa investigação feita na quinta do velho Cowp, no dia seguinte, descobriu-se não só o esconderijo confortável do bom Jack, mas também pedaços de uma carta antiga mandada a Cowp por um irmão, convidando-o a ir viver em sua quinta em outro distrito; onde cartas mandadas por vizinhos curiosos o encontraram vivendo confortavelmente, mas não muito tranquilamente com a filha; que além de não ter sido assassinada, tinha adquirido toda a megerice da mãe e estava dando ao velho – segundo os vizinhos- um tratamento nada ameno.

Traduzido pelo Arquivo do Barreto


Pacheco também é cultura!

"Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida." - Provérbio Chinês

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