A boa samaritana


Os carros cruzavam as ruas em alta velocidade. As pessoas atravessavam como e quando podiam. Fora das faixas ou avançando sobre eles. Era mais um dia no agitado centro do Rio de Janeiro. Havia pessoas distribuindo panfletos, outras vendendo sanduíches, bolos e salgadinhos. Tinha barracas com relógios, outras com flores, e ainda com moedas. Alguns colecionadores iam lá para negociar seus mais preciosos bens.

Por entre essa salada de interesses as pessoas caminhavam, esbarrando-se ou não e uma dessas pessoas era a jovem Isadora. Uma bela morena, com cabelos encaracolados na altura das costas, os olhos negros como jabuticabas e o corpo belamente delgado. Estava indo para a escola, e já estava até atrasada, por conta de um acidente na Avenida Brasil. Terminava os estudos este ano e almejava uma formação superior. Serviço Social mais precisamente.

Caminhava com certa pressa, pensando em seu namorado, Milton, que estudava com ela. Tinham brigado ontem, por ciúmes, que variavelmente eram infantis. Ciúmes dele. Ela era muito bonita e isso chamava a atenção de todos, por onde quer que passas-sem. Não era qualquer homem que aturava isso.

Ia atravessar mais uma rua, quando percebeu um senhor que tinha dificuldades em fazê-lo. As pessoas passavam por ele como se ele não existisse, como se fosse um objeto inanimado, um poste ou outra coisa qualquer. Ignoravam-no. Sua mãe sempre lhe ensinou a respeitar e ajudar os mais velhos. “Ama ao próximo como a ti mesmo” repetia ela sempre. Isadora aproximou-se, mesmo sabendo que isso implicaria em mais atraso.

– O senhor está precisando de ajuda? – disse ela.

– Ah! Por favor, minha querida, se você puder... – disse ele com a voz um pouco fraca. Usava um velho chapéu e óculos escuros, além da bengala em que se apoiava. Não parecia tão velho, mas algumas pessoas devido a vida que levam envelhecem mais rápido que as outras.

– Como não! Segure meu braço! – disse ela estendendo o braço esquerdo para o senhor.

– Muito agradecido... – disse ele enquanto atravessavam. – As pessoas não se importam mais comigo minha filha. Mal sabem eles que estão indo para o mesmo lugar!

– Isso é uma falta de respeito não é? – disse ela. Às vezes os idosos precisam mais do que ajuda para atravessar as ruas. Uma simples conversa é gratificante. Na maioria das vezes são abandonados pelas famílias em asilos e quando não, ficam às moscas, cochilando no sofá, em frente à televisão, assistindo a uma programação que não escolheram. Seus filhos, genros e netos acham que não podem escutá-los, mas sim eles escutam. Desconsideram o que ouvem talvez.

– Fiquei sabendo minha filha, que lá na Índia os idosos são os mais respeitados de toda a sociedade. Não podia ser assim aqui também?

– Com certeza! – disse ela, com um lindo sorriso. – Pronto, o senhor está entregue!

– Muito obrigado minha filha! Não sei como lhe agradecer!

– Não precisa me agradecer senhor! – disse ela acariciando a mão do senhor.

– Mas eu faço questão querida! Venha, eu lhe pago um lanche...

– Não precisa senhor! – disse ela.

– Por favor, não esnobe o minha oferta. Venha comigo, será rápido. – insistiu ele de um jeito que ela não pôde recusar.

Caminharam lentamente, dentro das capacidades do idoso, até uma lanchonete próxima. Sentaram-se e fizeram seus pedidos. Quem os via acreditaria que eram pai e filha, tamanho o carinho com que Isadora tratava-o.

– Escolha o que quiser minha filha!

– Me dá um pão na chapa, por favor? – pediu ela ao atendente.

– Mas só isso? Não vai beber nada? – perguntou o senhor.

– E um suco de laranja, por favor. – complementou ela.

– O senhor não vai querer nada? – perguntou o atendente.

– Ah, para mim só um cafezinho... – disse ele.

Aguardaram por algum tempo para o que os pedidos fossem trazidos. Enquanto is-so o velho ia dizendo quantas operações tinha feito, de vista, de hérnia e tudo quanto é operação que uma pessoa pode fazer. Disse que era viúvo e que morava com a filha mais velha. Neste momento, o garçom trouxe os pedidos de uma só vez. O senhor puxou a car-teira e abriu-a com as mãos trêmulas.

– Depois que sair daqui vou fazer uma "fezinha"... Quem sabe não é hoje? – disse ele pegando uns bilhetes de loteria, deixando cair umas moedas. – Que descuido o meu!

– Pode deixar que eu pego para o senhor! – disse Isadora, abandonando seu copo de suco no balcão.

– Muito obrigado minha filha. Você é um anjo em minha vida! – disse ele enquanto contava as moedas e entregando ao rapaz. – Vê se está certo, por favor!

– Está certinho, obrigado! – disse ele.

O senhor degustava seu café como se fosse o único em cem anos. Tinha ao mesmo tempo uma expressão feliz e apreensiva, que Isadora não entendia. Talvez fossem os problemas do dia a dia, o convívio com os filhos que nem sempre é pacífico.

– Como está seu suco minha filha? – perguntou ele num sorriso enigmático.

– Está ótimo... – disse ela, mas sua boca havia se tornado doce demais. As vistas ficaram turvas e sentiu cambalear. Antes de desmaiar completamente conseguiu ver o velho aproximar-se rapidamente dela, para ajudá-la, como em nenhum momento ela o viu fazer.

Isadora sentia frio, muito frio. Nem em seus piores pesadelos pensou em tamanha sensação, de profunda impotência. Parecia que estava mergulhada, nua, em um grande lago, congelado, e desesperada queria sair, batendo com as mãos no gelo, tentando quebrá-lo sem sucesso. Estava ficando sem fôlego, mas ao mesmo tempo sentia um cheiro de remédio, e passos ecoando distantes.

Abriu os olhos lentamente. Estava numa sala fria, com as paredes brancas. Um homem vestido de branco caminhava com uma seringa, de costas para ela. Olhou para os lados. Havia corpos ensanguetados em cima de outras mesas, aparentemente com as barrigas abertas de cima a baixo. Olhou para si mesma. Estava nua, com uma linha desenhada entre seus seios até uns dois dedos abaixo do umbigo.

O homem virou-se na sua direção e arregalou os olhos por encontrá-la acordada. Lançou-se sobre ela com furor, e ela debatia-se, lutava, encontrando forças onde não existia. Dava gritos agudos, que foram impedidos pela mão do homem, que lhe apertava a garganta. Com isso, ficou com uma das mãos livre, indo tatear uma bandeja sobre uma mesa próxima. Pegou um bisturi e cravou no pescoço do homem, rasgando de um lado a outro.

O homem caiu ao chão, tremendo, moribundo. Isadora levantou-se rapidamente, ofegante e correu na direção da porta. Ouviu passos pesados e pessoas gritando. Olhou em volta, procurando um lugar para se esconder. Seguiu até um armário próximo. Em seu caminho havia várias caixas, das que se usa para acondicionar produtos que precisam de refrigeração.

Isadora tentava desesperada esconder-se, chorando copiosamente. Como iria sair dali? Os passos ficaram mais próximos e ela ainda não tinha conseguido entrar no armário ainda. Abriram a porta num estrondo, com armas em punho. Uma dezena de homens vestidos de farda cinza. Eram policiais. Um deles tirou a camisa e aproximou-se dela.

– Calma moça, tudo vai acabar bem... – disse ele cobrindo-a com a farda. Isadora chorava de soluçar.

Era a primeira vez em anos que a polícia conseguia desmontar uma quadrilha de tráfico de órgãos. Raptavam pessoas e extraíam-lhes os órgãos para vendê-los no exterior. Abusavam da solidariedade das pessoas para atraí-las, como uma planta carnívora que exala o odor para atrair os insetos, diretamente para a morte.

No mundo em que vivemos não se pode confiar em ninguém. Ninguém.

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

Ilustradora
Silvia Elena Pastor

Silvia nasceu em San Luís, Argentina (há muito tempo atrás - palavras da autora). Ainda criança gostava muito de desenhar, por isso mais adiante resolveu estudar na academia de Belas Artes de Buenos Aires e fazer aulas particulares em atelieres de artistas porteños destacados. Participou em exposições na Argentina, Brasil e Chile, onde morou e trabalhou com animação , por longo período.

Contato: Silvia Elena Pastor - Portfólio

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