Carta para Renato Aragão


A jornalista Eliane Sinhasique, de 34 anos, é um exemplo de alguém que não veio a esse mundo só a passeio. Dona do programa de rádio de maior audiência em Rio Branco, há quatorze anos ela descobriu que a receita do sucesso é simples: ouvir as pessoas. No programa Toque e Retoque, além de dicas variadas e músicas, a apresentadora lança mão de uma espécie de divã ao vivo.
Há alguns meses surgiu na internet um carta aberta endereçada a Renato Aragão, o Didi, supostamente de sua autoria. Segue a carta:

"Querido Didi,
Há alguns meses você vem me escrevendo pedindo uma doação mensal para
enfrentar alguns problemas que comprometem o presente e o futuro de
muitas crianças brasileiras. Eu não respondi aos seus apelos (apesar de
ter gostado do lápis e das etiquetas com meu Nome para colar nas
correspondências).
Achei que as cartas não deveriam sem endereçadas à mim. Agora,
novamente, você me escreve preocupado por eu não ter atendido as suas
solicitações. Diante de sua insistência, me senti na obrigação de parar
tudo e te escrever uma resposta.
Não foi por 'algum' motivo que não fiz a doação em dinheiro solicitada
por você. São vários os motivos que me levam a não participar de sua
campanha altruísta (se eu quisesse poderia escrever umas dez páginas
sobre esses motivos). Você diz, em sua última Carta, que enquanto eu a
estivesse lendo, uma criança estaria perdendo a chance de se desenvolver
e aprender pela falta de investimentos em sua formação.
Didi, não tente me fazer sentir culpada. Essa jogada publicitária eu
conheço muito bem. Esse tipo de texto apelativo pode funcionar com
muitas pessoas mas, comigo não. Eu não sou ministra da educação, não
ordeno e nem priorizo as despesas das escolas e nem posso obrigar o
filho do vizinho a freqüentar as salas de aula. A minha parte eu já
venho fazendo desde os 11 anos quando comecei a trabalhar na roça para
ajudar meus pais no sustento da minha família. Trabalhei muito e, te
garanto, trabalho não Mata ninguém. Muito pelo contrário, faz bem!
Estudei na escola da zona rural, fiz Supletivo, estudei à distância e
muito antes de ser jornalista e publicitária eu já era uma micro
empresária.
Didi, talvez você não tenha noção do quanto o Governo Federal tira do
nosso suor para manter a saúde, a educação, a segurança e tudo o mais
que o povo brasileiro precisa. Os impostos são muito altos! Sem falar
dos Impostos embutidos em cada alimento, em cada produto ou serviço que
preciso comprar para o sustento e sobrevivência da minha família.
Eu já pago pela educação duas vezes: pago pela educação na escola
pública, através dos impostos, e na escola particular, mensalmente,
porque a escola pública não atende com o ensino de qualidade que,
acredito, meus dois filhos merecem. Não acho louvável recorrer à
sociedade para resolver um problema que nem deveria existir pelo volume
de dinheiro arrecadado em nome da educação e de tantos outros problemas
sociais.
O que está acontecendo, meu caro Didi, é que os administradores, dessa
dinheirama toda, não têm a educação como prioridade. Pois a educação
tira a subserviência e esse fato, por si só não interessa aos políticos
no poder. Por isso, o dinheiro está saindo pelo ralo, estão jogando
fora, ou aplicando muito mal. Para você ter uma idéia, na minha cidade,
cada alimentação de um presidiário custa para os cofres públicos R$ 3,82
(três reais e oitenta e dois centavos) enquanto que a merenda de uma
criança na escola pública custa R$ 0,20 (vinte centavos)! O governo
precisa rever suas prioridades, você não concorda? Você pode ajudar a
mudar isso! Não acha?
Você diz em sua Carta que não dá para aceitar que um brasileiro se torne
adulto sem compreender um texto simples ou conseguir fazer uma conta de
matemática. Concordo com você. É por isso que sua Carta não deveria ser
endereçada à minha pessoa. Deveria se endereçada ao Presidente da
República. Ele é 'o cara'. Ele tem a chave do Cofre e a vontade política
para aplicar os recursos. Eu e mais milhares de pessoas só colocamos o
dinheiro lá para que ele faça o que for necessário para melhorar a
qualidade de vida das pessoas do país, sem nenhum tipo de distinção ou
discriminação. Mas, infelizmente, não é o que acontece...
No último parágrafo da sua Carta, mais uma vez, você joga a
responsabilidade para cima de mim dizendo que as crianças precisam da
'minha' doação, que a 'minha' doação faz toda a diferença. Lamento
discordar de você Didi. Com o valor da doação mínima, de R$ 15,00, eu
posso comprar 12 quilos de arroz para alimentar minha família por um mês
ou posso comprar pão para o café da manhã por 10 dias.
Didi, você pode até me chamar de muquirana, não me importo, mas R$ 15,00
eu não vou doar. Minha doação mensal já é muito grande. Se você não
sabe, eu faço doações mensais de 27,5% de tudo o que ganho. Isso
significa que o governo leva mais de um terço de tudo que eu recebo e
posso te garantir que essa grana, se ficasse comigo, seria muito melhor
aplicada na qualidade de vida da minha família.
Você sabia que para pagar os impostos eu tenho que dizer não para quase
tudo que meus filhos querem ou precisam? Meu filho de 12 anos quer
praticar tênis e eu não posso pagar as aulas que são caras demais para
nosso padrão de vida. Você acha isso justo? Acredito que não. Você é um
homem de bom senso e saberá entender os meus motivos para não colaborar
com sua campanha pela educação brasileira.
Outra coisa Didi, mande uma Carta para o Presidente pedindo para ele
selecionar melhor os ministros e professores das escolas públicas. Só
escolher quem, de fato, tem vocação para ser ministro e para o ensino.
Melhorar os salários, desses profissionais, também funciona para que
eles tomem gosto pela profissão e vistam, de fato, a camisa da educação.
Peça para ele, também, fazer escolas de horário integral, escolas em que
as crianças possam além de ler, escrever e fazer contas possa
desenvolver dons artísticos, esportivos e habilidades profissionais.
Dinheiro para isso tem sim! Diga para ele priorizar a educação e
utilizar melhor os recursos.
Bem, você assina suas cartas com o pomposo título de Embaixador Especial
do Unicef para Crianças Brasileiras e eu vou me despedindo assinando...
Eliane Sinhasique - Mantenedora Principal dos Dois Filhos que Pari.
P.S.: Não me mande outra carta pedindo dinheiro. Se você mandar, serei
obrigada a ser mal-educada: vou rasgá-la antes de abrir.
PS2* Aos otários que doaram para o criança esperança. Fiquem sabendo, as
organizações Globo entregam todo o dinheiro arrecadado à UNICEF e
recebem um recibo do valor para dedução do seu imposto de renda. Para
vocês a Rede Globo anuncia: essa doação não poderá ser deduzida do seu
imposto de renda, porque é ela quem o faz.
PS3* E O DINHEIRO DA CPMF QUE PAGAMOS DURANTE 11(ONZE) ANOS?
MELHOROU ALGUMA COISA NA EDUCAÇÃO E NA SAÚDE DURANTE ESSES ANOS?
BRASILEIROS PATRIOTAS (e feitos de idiotas) DIVULGUEM"


Pacheco também é cultura!
"Aquele que pergunta, pode ser um tolo por cinco minutos. Aquele que deixa de perguntar, será um tolo para o resto da vida." - Provérbio Chinês

Um comentário:

  1. O que falou é a mais pura realidade.É isso aí! O que você tem a falar do Big .
    Brother Brasil? Qque tem no fundo o mesmo propósito: Arrancar dinheiro dos trouxos. Se fosse sem fins lucrativos, porque não ligar para um 0800. Quero ver postado sua opinião acerca disso.
    Abraço
    Alessandro Soledade - Tradutor

    ResponderExcluir

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.